segunda-feira, 23 de setembro de 2013
O nome
O nome gritado da
lama. Loucura é
ópio, incenso, pena
e perfume. Transgridem meus olhos e
perdem os céus. Os
seus. Seu nome.
Um nome é fome
de sentido. Nome
se rende abstracto.
Nome anti-libertação. É medo
de tocar os céus.
Em transe reencontro a que fui
quando não era.
Em êxtase encontro o nome que
era meu e desaprendi a dizer.
Corro para lembrar das minhas
asas. Fujo para
ser encontrada
pela outra face
da imagem que
perdi. Espelho.
Projeto no outro
o outro que sou,
que fui, que
queria ser. Todo
amor é uma
projecção. Toda
imaginação é
uma lembrança
de uma coisa
outra que era.
É o nome lembrado e cuspido
na lama.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Dos monges
Sub-amores olham através das janelas com cortinas entreabertas seu copo de veneno cotidiano passar. Venta. O chapéu que voa solto pelo ar conhece mais histórias sobre vontades entardecidas do que pensávamos. Mato-me mais uma vez para dar sentido à existência. Não aprendi nada no espelho das lamentações. Eiras e beiras continuam perdidas na gaveta da antiga escrivaninha. Não lembro onde começa a história. Línguas se apressam a falar do que não sabem. Uma moeda por teu silêncio! Uma moeda por teu silêncio! É pecado por a culpa no pecado. Não confio em quem me tenta roubar a liberdade. Fragmentos de vento contam suas memórias às janelas abertas. Não sei como se comportam as paisagens. Não suplico por folhas caídas. Cada vela apagada é um livro terminado. O cheiro do eco das manhãs continua a atrair olhares complacentes. Deixo que teu castigo seja a minha indulgência. O sino não fez das pedras mudas. Um corpo sem marcas é um espírito sem vida. Não há verdade em quem tem medo do fogo. Palavras frívolas são como mantras que fazem minha mente viajar para outros universos. Sete arranhões cicatrizados antes do vento apagar a última vela. Nada é tão cataclísmico depois de uma noite de sono. Bons sonhos! Que o santo ventre da terra te seja acolhedor!
sexta-feira, 22 de março de 2013
Sutiã na cabeça
Era terça-feira torta como toda terça-feira torta logo após segunda-feira insana. Acordei. Abri os olhos. Uma borboleta do tamanho de uma vaca estava entalada na minha janela. Abri os olhos. Ainda estava lá. A vil criatura olhava-me com seus enormes olhos famintos. Olhei a porta. Num pulo pus-me para fora da cama. Fugi do quarto. Corri para a cozinha a pensar que meu mal fosse talvez falta de café. Para meu espanto, um dragão chinês cozinhava e, muito educadamente, convidou-me para sentar e apreciar a nova receita de bananas flambadas com canela que criara. Apesar do susto, comi. A cara era muito boa e adoro tudo que leva canela. Depois de comer, calculei que um banho de água fria resolveria o meu caso. Ledo engano! No banheiro encontrei cinco anões azuis tocando rock com seus cavaquinhos."Ó, Zeus, esta casa está amaldiçoada", pensei. O jeito foi correr à rua para respirar ar puro. Péssima decisão! Em frente a minha casa ocorria uma parada de cachorros falantes com plumas de ganso a sair-lhes pelas orelhas. "Só tem uma solução", pensei. "Vou à delegacia. Lá algo devem fazer." Ideia ruim, ideia sem jeito! Encontrei policiais vestidos de Village People cantando fado, enquanto Leonardo da Vinci tatuava Monalisa na sua nádega esquerda. "Não há jeito. Preciso de um médico!". Tomei um táxi para o hospital. Um macaco cor-de-rosa guiava o carro, mas o que é uma cerveja pra quem já está completamente ébrio? "Um médico, por favor! Um médico!", gritei hospital adentro. Caetano Veloso atendeu-me com um uniforme de enfermeira dos anos 50 e confesso que achei que lhe caiu até muito bem. "Preciso de um psiquiatra", disse-lhe. Em poucos minutos estava eu diante de uma orquídea com um lindo vestido amarelo e sorriso branco que perguntava-me: "Que houve, minha querida?" "Acho que enlouqueci. Estou a ver coisas que não podem existir." "E quem diz o que pode ou não existir? Isto e caso de poesia, minha filha." Voltei para casa querendo minha mãe, minha cama e fazer manha. Que dia mais insano! Que terça mais maluca! Mas que é que é insano, afinal? Deixa o caos reinar que isto é casa de escritora.
quarta-feira, 13 de março de 2013
Precipício
Estes silêncios insondáveis são teu vício. Meu precipício. Penduro minhas asas à janela e caminho para fora do paraíso. Tuas palavras são só resquícios de mil conversas inventadas. Conversas entardecidas. A lua minguou, meu bem. Os cigarros voltaram para a mesa e esperança retornou à gaveta. A memória da pele tem sangue nas mãos. A memória dos sentidos repeliu as tuas palavras. A memória dos encontros esqueceu-se do teu calor. “Pula”, dizem as vozes e permaneço com meus pés presos ao chão. Ó, céus, por que reinvento-te toda vez que morre um pedaço meu? Nunca fomos mais do que histórias antigas recontadas. Rememorar-te é minha covardia cotidiana. A lua é só um arco no céu. Estou só. O silêncio comeu todos os meus afetos. Minhas páginas estão a apagar-se. Reinventemos o dia já que a noite escura nunca finda. Minhas palavras derramadas combinam com teu signo indecifrável. A minha fonte é seca. Minhas raízes estão fracas. Minhas folhas estão a cair. O precipício grita o meu nome. Falta tanto tempo para a lua cheia! Meu tronco já não pode resistir. Estou tão cansada de coleccionar descaminhos! Só as palavras fazem meu coração palpitar. Amo-te porque és a minha mais bela reinvenção. Meu copo de veneno. A lua guia meus passos ao precipício. E precipito-me em teu silêncio inventado.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Outros pecados
Recomeça a vida toda vez que piscam os olhos. E em cada recomeço faz-se céus e terra. O dia durou mais do que deveria. Os meus dias são longos quando tão separados dos teus. Os teus. Ateus dançam agora no nosso esquecido Jardim do Éden. Quiseste provar as delícias do fruto proibido nos meus lábios. Meu pecado teve gosto de desconhecimento. Depois de pecar perdemos o dom de enxergar. Não reconheço mais teu rosto. Vejo um, vejo dez, vejo cem. Todos os rostos que vejo são iguais. Sinto falta de um tempo onde eu cria ser teu rosto diferente de todos os outros rostos. Abel ou Caim? Não sei. Nunca soube. O dilúvio apagou teu perfume das minhas narinas. Castigo para amante de nefilins. As águas apagaram minha existência. Sempre estrangeira em terra distante. Não pertenço à nenhuma das doze tribos. Na tua casa não entrei porque meus muitos deuses ofendem-te. Queres-me. Persegue-me. Não entendo. Não entendo! A carne que beijas à noite, quando dia, queimas em praça pública. Um filho do teu Deus salvou-me do apedrejamento, mas teu olhar continua a condenar-me. Teus olhos crucificam-me. Mesmo depois de por serapilheira, raspar minha cabeça e receber nome cristão, tu pensaste em mim como indigna de ti. “O cão volta ao seu vómito”. Recito teu Livro Sagrado e volto aos meus deuses que nunca abandonaram-me. Recomeça a vida toda vez que piscam os olhos. Que haja a luz!
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Ruínas
Quanto tempo faz que nosso tempo se desfaz? Os tempos não voltam jamais. Não foram sete tempos e meio como na profecia, mas também estamos em ruínas. Nossas muralhas fortificadas são hoje só pó da grande civilização que fomos. O Livro Sagrado não conta a nossa história. Não fomos heróis. Deixamos o amor morrer. Fugimos da guerra por medo da morte e veja só, meu bem, morremos. A culpa foi mais minha que tua. Preferi ver-te transformado em covarde do que queimado em praça pública. E a vergonha fez com que fugisses de mim. A vida é uma faca de dois gumes. Agora sou só algumas pedras, resquício da muralha que um dia fui. Vejo homens subirem em minhas costas e narrarem as histórias que desconhecem sobre nós. Não estamos no Livro Sagrado. Não fomos perversos. Mesmo quando tentamos ser maus, algum amor nos salvou da perdição. E a todos os nossos pecados pagamos. Eu senti o calor da fogueira até virar cinzas. Hoje o céu está cinza. Tudo está cinza. O Livro Sagrado esqueceu-se de nós. Não somos santos. Das nossas mãos ainda goteja o sangue dos inocentes que cruzaram o nosso caminho. Todo mundo é culpado. Todo mundo é inocente. O tempo revela as nossas culpas. O tempo perdoa nossas falhas. Não temos mais tempo. O fogo volta a consumir nossas arruinadas fortificações. Desafiamos aos deuses e eles nunca nos perdoaram. Não perdoarão.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Naufrágio de palavras
Ouço o som do vento lá fora. Ouço o silêncio do tempo cá dentro. Todas as tuas vozes mentem. Ouço-as todas. O vento agita as páginas de um velho livro pousado à janela. O livro mente amores. Esses tais amores que tantas bocas cantam à cada esquina. E cada poeta que canta seus feitos canta com tanta propriedade que sinto cada vez mais vetado a mim o uso do vocábulo. Ouço o som do vacilo das tuas pernas ao caminhar em minha direcção. Tu não vens. Não sei se o fogo ardeu sem ser visto. Não sei. Nunca saberei. Teus dedos mentem quando pegas a pena? Com a pena não mentes. Todas as tuas invenções são tão reais quanto o vento que agora carrega os pedaços do que um dia foi uma carta dirigida a ti. Eu menti. Menti meu desamor. Não reparaste que em momento algum meus olhos tocaram os teus? Não, tu não reparaste. Não reparas em mim. O vento traz folhas do fim do outono. Nenhum outono vence o inverno. Mesmo teus invernos foram-me verões. Mas as naus continuam a seguir mesmo sem ti. Teu barco permanece ancorado mesmo que mintas a ti o contrário. Estendo minhas velas ao vento. Sempre. O vento leva-me ao meu destino. Os ventos rasgam o silêncio que não quis se calar. Queria que soubesses calar nossos subjuntivos. Tu não o fizeste. Em vez disso, pôs ponto final em nossas orações. Culpamos o mar. Culpaste o tempo. Culpo o medo. Minhas velas incertas guiadas por ventos passageiros puseram medo ao coração do marinheiro. Meu barco precisa do vento. O vento que nos afasta e leva tuas palavras ao fundo do mar. E ouço o vento calar as tuas vozes.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Chuva dourada de outono
Hoje recebi um sinal. Saía de casa nervosa a pensar na minha apresentação oral de Italiano quando um evento mágico ocorreu: na rádio, uma das minhas músicas favoritas começou a tocar e, no mesmo instante, um vento forte fez com que as folhas secas, douradas das árvores de uma rua de Coimbra começassem a voar por toda a parte. Era a chuva dourada! Sorri. São essas pequenas magias do dia-a-dia que fazem-me feliz, fazem-me sonhar e acreditar em forças superiores a mover meu mundo. Estou às portas dos vinte e três anos. Quando lembro-me de como eu era, quase não acredito em onde estou. E não falo de um estar geográfico. É onde estou cá dentro de mim. Mil vezes meu caminho mudei. Todas as vezes que me apeteceu, escolhi a estrada da bifurcação que dizia perigo. Algumas vezes me machuquei. Em outras, descobri que a placa não passava de uma galhofa. Mas em todas as vezes que escolhi um caminho, fui feliz por escolher o meu caminho. Dizem que cada escolha é uma renúncia. Digo que cada escolha é uma denúncia. Nossas escolhas vão, aos poucos, denunciando nossos desejos, nossos medos, nossos desconsertos. Estou exactamente onde eu queria estar. Se um pequeno trecho da estrada fosse diferente, cá eu não estaria. É, são chegados os vinte e três anos. Tempo pouco. Tempo muito. Tempo suficiente para descobrir que é melhor saborear o mundo do que comê-lo todo de uma vez só. Mas, às vezes, uma grande mordida é uma delícia! Nunca testemunhei um assassinato, mas vi alguns corações serem enterrados vivos. Também já enterrei o meu. Mas seu pulsar era tão forte que a terra sobre si não o pode conter. Sinto gotículas geladas em mim. É chegada chuva. Tempo frio. Melhor assim. Quanto mais gela lá fora, mais quente fica cá dentro. O outono e suas magias. Passo na Oito de Maio e um casal corre, dança e pula ao som de um senhor que toca. Sorri.Do outro lado do Mondêgo, às suas margens, um casal de idosos passeia e conversa de mãos dadas. Tão lindos! Dias de outono são sempre tão mágicos! Hoje recebi mil sinais. De agora em diante, contarei meus anos pelos outonos.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Dia e noite
Dia e noite. Somos dia e noite, meu antigo delírio. Teus olhos carregam a cor dos dias claros de sol. Tu és sol. Eu sou a noite. Sou o anoitecer. Em meus olhos só podes ver o escuro de uma noite tempestuosa. Sou tempestade. Só sei ser tempestade. Tua calma diurna me desconcerta. Desalinha-me. Enlouquece-me. És sol, meu bem. És sol. E és capaz de iluminar o mais apagado dos corações. Mas não quero que a tua luz acabe com o meu enoitecer. Se eu não mais noite for, dia por certo não serei. Que serei então? Uma tarde? Ou madrugada? Não posso, não quero. Não podes amar-me noite, compreendo. Só nasço quando tu já morres. E tu ressurges quando tenho que desaparecer. Mas sejamos justos, meu sol. Jamais me teria querido se eu fosse dia como tu és. O Sol só desejou a Lua porque não a poderia possuir. Nem tu, nem outro qualquer. Noites não podem ser possuídas, não aceitam ser postas em aquários. Noites não são peças decorativas de uma estante. Noites são amantes da Saudade. Noites são fragmentos de Sonhos Antigos dispersos, perdidos, encontrados, desalinhados. Noite é tudo o que não és, belo dia. Noite não tem medo como o dia tem da escuridão da noite. Tu fizeste-te sol por medo do escuro. Fiz-me lua para seguir mesmo sem ver o caminho onde piso. Não tenho medo. Não mais. Depois que o dia se foi voltei a ter paz.
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Coisas de fora da tribo
Mar. Maldito mar! O mar mentiu pra índia. Índia devia era ter sabido que tanto azul assim de verdade é que não devia de ser. Índia acreditou em palavra de homem branco e índia nunca acreditava em palavra de homem branco. Índia sentiu uma coisa morrer dentro de si. Índia sabia que muito e por demais bem queria homem branco mesmo querendo fazer guerra com homem branco. Índia quebrara flecha da paz com homem branco. E índia pensou em como a gente começa a aceitar até flecha no peito se flecha no peito fizer coração parar de doer. A gente brinca de faz-de-conta-que-é-verdade e acaba por acreditar em palavra de homem branco. E homem branco pensa que a gente sabe que é brincadeira quando fala de amor. Mas homem branco não sabe que, na minha tribo, bem querer nunca que é brincadeira não. Só porque índia anda perdida da tribo, homem branco pensa que índia perdeu toda noção. Índia só se perde quando homem branco vai embora sem dizer porque foi embora. Mas índia vai aprendendo que em palavra de homem branco não se confia. Homem branco não faz por mal. Homem branco acha que índia nada sente, que índia é diferente, que índia não é gente. Mas índia espera um dia ver homem branco chorar e muito, igual índia chora agora. Índia promete a si mesma matar pra sempre o querer-bem-quem-não-lhe-quer-bem. Índia promete.
sábado, 13 de outubro de 2012
Das ascensões e declínios das paixões (parte 1)
Voltou os olhos para o além-mar. Abandonou. Abandonou-se. Ainda perguntava-se se de fato voltara. E, enganando-se, dizia que sim. Quem foge da liberdade? Talvez quem fuja sinta-se livre para fugir. Em terra de certezas, permanecia uma interrogação. Quis correr para sentir o vento no rosto tal como antes sentia. Não correu muito. Cansou. Parou. Sentou-se no chão. Viu as horas. As horas. Malditas horas! Corriam demais. Demoravam demais. Horas e seus ais… Chorou. Lembrou das palavras da avó que sempre dizia que as lágrimas limpam a alma. Pensava ter banalizado seu choro. Por tanta coisa boba já deixara-se escorrer! Mas quem , afinal, determina o por quê se é justo chorar? Viu o sol querer desaparecer no horizonte. “Meu sol”, sussurrou ao vento . E esperou que seu sussurro fosse pelo vento entregue ao seu verdadeiro dono. Lembrou do velho caderno. O velho caderno foi esquecido. Não. Foi deixado. O caderno esperaria por um leitor na última gaveta da cómoda do corredor. Aquela que ninguém nunca abre. A gaveta aonde guardava-se fotos antigas, velhitas e já danificadas. Alguns trabalhos de tricô já manchados pelo tempo. Um sapatinho de bebé azul e sem par. Folhas de outonos passados. As folhas do seu caderno eram do outono passado. Outono. Pensara ter morrido junto com o outono. Não morreu. Talvez a vida não seja assim tão frágil. A morte pareceu-lhe muito mais delicada. Fugiu. Foi pelo medo do declínio que fugiu. Agora sabia. Cansou-se de estar sentada. Poderia deitar-se no gramado. Ver o céu. Contar estrelas. Não. Levantou-se. “Está feito”. E o vento parou.
Canto de esquecimento
Tu deixaste-me inventar uma nova ilusão. O mar em mim era tão revoltoso que quando encontrei as águas calmas nos olhos de um novo sol, não pude resistir. E o mar em mim não acalmou-se. As novas caravelas que passaram a atravessá-lo agitam-no tanto ou mais do que as antigas. Mas este canto não será erigido ao meu sol. Não. Este canto é de esquecimento. Quero que esqueçamos tudo o que não deveria ser esquecido. E que rememoremos, meu bem, as memórias esquecidas, as páginas apagadas. E o que nunca existiu. E o que erigimos ao nosso redor. E o que inventamos tão dentro de nós que até parece de verdade. E a minha antiga ilusão abandonar-me-á. Oh, meu céu! Por que te enublaste? As tardes foram ficando cada vez mais curtas até que, por fim, nos tornamos noite sem fim.E até as nossas tortuosidades perderam a importância que em tempos posteriores tiveram. Tão triste! Quero escrever uma nova história. Nosso enredo chegou ao final. A minha espera foi desleal conosco. Tu já nem me olhas... Hoje meu canto é de esquecimento. Perdoa-me, meu vento primaveril. O outono espera-me. E pequenos fios de ouro brincam ao meu redor.
sábado, 15 de setembro de 2012
Livro esquecido
Éramos uma narração sem enredo. Meros personagens sem papel. Éramos o lapso d'algum autor sem inspiração. Rascunhos fragmentários duma imaginação obsoleta. E vi do outro lado do caderno, na outra página, os olhos teus perdidos nos meus. E quis-te. E por querer-te, inventei as partes não escritas. Não sei se nosso autor de fato quis que fôssemos mais do que personagens dispersos. Sei que juntos criamos e recriamos páginas de mundos imaginários. Juntos demos ao nosso autor um final. Final? Quem o escreve, afinal? Escreveste-me mais do que uma vez. Escrevi tuas linhas também. Escrevemo-nos sempre que pensamos que já não existimos. Escrevemo-nos sempre que erigimos muros em nosso entorno. Escrevo amor e aventura. Escreves paciência e acolhimento. Escrevi um mar entre nós. Escreveste o medo do meu afeto. Algumas vezes escrevemos até personagens secundários. Mas sempre escrevo que não esqueço-te. E sempre escrevo-te para que não esqueça-me. Sempre antagonizamo-nos Sempre somos os nossos protagonistas. Para sempre presos aos nossos papéis neste livro dum autor desconhecido.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Monólogo da janela
Estive a procurar a constelação do teu nascimento. Almas partidas, perdidas, onde moram? Eu não conheço as estrelas. Mas contemplo-nas. E elas pousam a minha janela sempre que o Sol se despede. Vigiam meu sono. Testemunham as minhas insônias. Vejo o centauro correr no céu. Sempre mais longe lança suas flechas. E sempre mais longe as anseia lançar. E quanto mais corre, mais sua amada constelação foge de si. E tu foges de mim. E o instinto do lado equino age sempre pela impulsão. E caminha errante. Não, nunca caminha. Corre, pois tem pressa e medo de perder tempo. Tempo é existência, é vida. E o que é humano no centauro, quer sempre saber o que não sabe e o que sabe duvida que saiba só para que os que sábios são ensinem novamente. Às vezes o centauro para quando vê bifurcações. E trifurcações. E escolhe um caminho. E erra muitas vezes e perde-se na floresta. E desespera-se. Até que vê uma linda e frondosa árvore. E uma pedra engraçada. E um bichinho desconhecido. E sente a chuva cair devagarinho. E ouve as aves que gorjeiam. E pensa que se perder é talvez a única forma de se achar. E que digam que sua alma é perdida! Que mal há? Minh'alma é também partida. Somos dois? Somos um? Confundo-me agora. Antes que pudesse tua constelação encontrar, o céu enublou-se com nuvens avermelhadas. Nuvens vermelhas do que nosso fado. Não esse fado que ouço agora. O outro fado. Aquele fado que toca sempre quando desapaixono-me por ti. E que não termina sem que antes esteja eu mais uma vez perdida em tua constelação. Perdida nesta floresta misteriosa, fria, silente e ígnea que é o querer-te. E que traz-me à janela. E faz-me perguntar aos céus quanto tempo ainda tenho. E se nossos tempos podem juntos caminhar. E mais uma vez vejo que o sono começa a falar. E o ar gélido lembra-me que são horas de fechar a janela. Minha janela que de tanto o teu nome ouvir procura comigo tua constelação.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
À lápis
Penso que nunca contei. Mas a verdade é que escrevo a minha história sempre à lápis. Não consigo confiar na caneta. Ela parece-me tão definitiva, tão imutável! E quero que a minha história seja como um rio. Sempre águas diferentes. Outras águas. Entretanto não penses, meu mais querido entre todos os outros e, ainda assim, inomenável senhor, que a minha história escrevo à lápis para mais tarde apagar supostos erros e desvirtuações. Não. Os erros eu não apago. Antes, risco-nos com meu lápis. Faço tal coisa a fim de não tornar a lê-los constantemente e, com isso, perder o foco, deixar de lado o tanto que ainda tenho a escrever sobre a minha história. E não apago-nos pois não quero iludir-me de que os erros não ocorreram. Quero rememorar que erro sim. Sempre. Erras tu também, não é verdade? E sabes, meu mui estimado senhor, o que gosto em especial? Gosto quando partes da tua história misturam-se a minha. Gosto quando histórias tuas são minhas. Gosto quando histórias minhas são tuas. E bem sabemos, também escreves histórias. E o fazes tão bem! As tuas histórias são as mais perfeitas histórias que já li, senti, vivi. Hão-de dizer que foi o amor quem agora falou. E tu, sempre tão descrente, hás-de sugerir que tudo não passa de encantamento. Insto-te apenas, meu bem, que leias todas as minhas histórias. Se assim fizeres, saberás que engana-te. Não notaste que estás em todas as minhas orações? Carrego tanto de ti em mim! Ficção, vida real, sempre presente. Preciso despedir-me. O lápis apressa-me. Quer continuar a correr e correr sobre o papel. Sempre travesso. Sempre instintivo. Sempre suave. Mas antes, peço-te: escreves comigo um dia? Talvez o final da história. Talvez o começo. À lápis.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
A conversa notívaga
Quem dorme? Eu não durmo. Não consigo. E já nem tento. Tu dormes? Sabe aquela conversa que nós nunca tivemos? Ela está aqui. Viva, extensa, eterna. É, é ela. Há quanto tempo não conversamos? Não,não falo dessas frivolidades que dizemos um ao outro e fingimo-nos satisfeitos. Estou a falar de uma conversa de verdade. De falar e falar e expor o que temos dentro do coração. Será que podemos conversar agora? É que eu preciso mesmo falar. Preciso que compreendas o que eu digo. Podes, por favor, prestar atenção em mim? É que faltava-me coragem. Estive pensando em nós. Nas nossas conversas antigas. Falávamos sobre tudo. Sinto tanto a falta disso! Não, mentira. Eu falava sobre tudo. Acho que obriguei-te a gostar de mim. A culpa é toda minha. E fui eu também quem fez que deixasses de desejar-me. Eu sei que errei primeiro. Nada faz sentido. Acho que é o sono. Mas tenho medo de pegar no sono. Vou perder a coragem de falar. Será que amanhã vais me escutar? Falta pouco para amanhecer. O dia quer clarear. Minhas pálpebras pesam. Não posso dormir. Não quero que o amanhã se transforme em hoje. Lembras da nossa primeira conversa? Acho que não. Eu lembro. Eu a planejei. Eu queria-te tanto e tão bem! Será que amanhã ainda vou gostar de ti? Estou a perder as forças. O sono está a vencer-me. Mais uma vez adio nossa conversa. E nossa vida vai ficando para um depois que nunca há-de existir. Ficarei cá só mais alguns minutos. Prometo voltar logo para a cama. Nossa cama fria. Dorme. Eu durmo. Não sonhamos. Os sonhos, estes também ficam para depois. Quem dorme? Tu dormes belo e sereno. Meu anjo intocável. Conversamos amanhã.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Um violino em Madrid
Cá estou sentada à escadaria da Catedral de Nuestra Senhora da la Almudena. Um homem toca violino. Perco-me. Sempre perco-me. Em lugares, em palavras, em pessoas. Perco-me em olhares e em silêncios. E em violinos.Cá estive no sábado. Lembro-me de estar triste e pesada e de sair capaz de voar novamente. Gosto do som do violino. Gosto do som das moeda serem depositadas na caixa do violino. Gosto de ver toda essa vida ao meu redor. Casais apaixonados beijam-se, tocam-se. Pais afetuosos conversam e brincam com seus filhos. Amigos olham-se nos olhos enquanto trocam ideias. Pessoas vão. Outras pessoas vem. O violino não se cala. Nem a vida. E cá continuo a esperar. Não sei o quê. Não sei porquê. Não quero ir. O violino analgesia-me. E o tango que agora soa faz-me viajar. Imagino um homem alto e de pele morena aproximar-se de mim e, com um simples gesto, convidar-me para dançar. E num instante, sinto-me solta nas constelações. E agora saem do violino as notas de "Con te partiro". Mas eu parti sozinha. Sempre sozinha. Sempre sozinha? De onde vem esse medo? Do que tanto tenho medo? O que dói eu não sei. Só sei que dói incessantemente. Mesmo acompanhada, estou sempre só. E afinal, quem nunca abandonou por medo de abandono? Partir. É, faz sentido. Quem não parte-se ao partir? São tantas partidas que acumulo em vinte e dois anos que chego a perguntar-me: o que resta de mim? Que parte minha pertence-me? Um pai pega sua filha e carrega-no colo. Que saudades dos tempos em que eu tinha direito a receber colo! Saudades de sentir-me abrigada e protegida pelo simples fato de ter braços ao redor. Agora o violino incessante acaba de vez comigo. No ar propaga-se uma canção medieval que lembra-me infância, desejos secretos e amores perdidos. Amor perdido. Amor nunca encontrado. A hora da partida está a aproximar-se. Eu não quero partir. E se eu tocasse violino? Saberia falar o que sinto através de notas já que com palavras parece que nunca irei sabê-lo? Passa um casal. Ela sorri e fixa seu olhar nele. A mão, ao lado dele, parece inquieta. Ele sorri, diz algo e abaixa os olhos. E continuam a caminhar lado a lado. Nenhum toque. Nenhuma aproximação. A cena contrasta com a música romântica. A cena contrasta com a Espanha romântica qu conheci nos últimos dias. Parto. Parto-me novamente. E deixo parte parte de mim com estes quatro amigos que sorriem e abraçam-se livres de preconceitos bobos. E outra parte com este violino de Madrid.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Fim de Primavera
E foi-se a Primavera dos meus dias. Chegado é o Verão. Não é que não existam mais flores, mas estas foram ofuscadas pelo brilho do sol. E foram-se os versos da vida minha. Em prosa se fazem os meus dias. Poesia é para quem vive em eterna Primavera e eu, quem diria, decidi aceitar o fim da minha Primavera. O sol já não é ameno, queima a minha pele. Marcou-se o meu espírito. Os amores já não tem tons suaves de azuis, rosas, verdes. Agora eles tem a intensidade fugaz dos vermelhos, laranjas, amarelos... Acho que os amores de Verão nem sequer amores são. É tudo quente. Tão quente que ao fim do dia descubro-me cansada, acabada, nauseada. Mas é mesmo assim que se vive em Verão. Andei a pensar que deveria ter aproveitado mais minha Primavera. Ter visto as tulipas florescendo. Não consigo lembrar-me ao certo do dia em que o Verão chegou. Foi um processo lento, gradual e ao mesmo tempo, rápido demais. É tanto calor! E estes mergulhos em águas incertas só o abrandam por alguns poucos minutos. O corpo pede mais. O espírito pede paz. Entretanto, bem sei que a vida é sempre cíclica. A Primavera há-de retornar. Porém, antes é preciso que o Verão continue a queimar minha pele. E que as marcas façam-me lembrar dos dias de sol. E que venha o Outono e que a árvore dos meus dias dispa-se das suas folhas dos preconceitos, medos, receios e recuos. E dos desejos não realizados. E que venha também o Inverno com seu frio e suas solidões. E que o vazio dos seus dias cinzentos deixem-me receptiva ao inesperado. E então há-de vir a Primavera. E das sementes adormecidas brotarão flores. E com um pouco de sorte encontrarei quem as saiba colher.
terça-feira, 5 de junho de 2012
Entranhas
Perco-me sempre neste transitar das tuas palavras não ditas. Tuas palavras malditas. Não sei ao certo que ler nestes teus olhos acusativos. Estes teus olhos que só fazem causar-me indigestões. E oferece-me tua alma. Diz-me teu preço. Que pensas? Acaso sou alguma espécie de diabo ou demónio? Não interessa-me o preço da tua alma. Se ela está à venda, não interessa-me. Tu não vieste das minhas entranhas, mas persiste em nelas morar. Somos sempre as mesmas palavras derramadas. As mesmas palavras entrevadas.As mesmas malditas palavras. Não cansaste-te disto? Tuas litanias ferem os meus ouvidos. Desconcertam-me. E vejo que viciei-me no amargor dos teus lábios. Só teu veneno cura-me da paz abominável. Viciamo-nos nesta brincadeira de fazer doer. Tens a arte da contemplação dos olhos meus rasos d'água. E eu, só eu sei como preferes que cravem-te o punhal. As tuas notas, todas as notas da tua canção de leviandade penetram-me desde antes dos nossos olhos se estranharem. Nossos olhos, que a despeito do espaço, insistem em se enterrarem.
E as palavras esquecidas, existiriam de fato? As palavras,tais quais espadas afiadas, tornam as feridas cada vez mais profundas. E nossos grilhões? Quando os deixaremos?
Sete vezes tentei fugir.
Mas minhas entranhas ainda guardam o perfume do teu silêncio.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
O mar e seus desejos
Resolvi dar as costas mar. Sua poesia já não me encantava.Abri meus olhos, parei de sonhar. Como as ondas eu regressara. Parti sem um rumo certo ter. Não escolhi qualquer destino. Fugia daquele que era o meu desatino. O vento forte guiou-me ao deserto. Através das areias quentes vaguei. Por entre dunas e rochedos andei. Mas minhas entranhas ainda recordavam do perfume que escondia-se sob teu olhar perverso. E será que fomos mais do que palavras derramadas? E a cada passo que dava, o vento apagava as minhas pegadas. E entardeceu. Entardecemos. E agora, o que restava-nos se nem o sol mais tínhamos? E o que eu lembrava-me eram pedaços do cheiro do mar. E acredite-me, a estas lembranças entrelaçavam-se fragmentos teus. E quanto mais longe eu sentia-me do oceano, mais alta era a sua canção. E toda aquela areia a minha volta a enlouquecer-me... E o mar tão longe! Tão perto! E a chuva eu esperava. E a chuva nunca chegava. E as vozes suplicavam-me pelo mar. E eu rendi-me. Fraquejei. Voltei. E entreguei-me ao mar. E dilui-me. E o mar tragou-me. E tu nem reparastes. E não existo mais. E eu existo, aliás. O mar sou eu e eu sou o mar.
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