sábado, 15 de setembro de 2012

Livro esquecido

Éramos uma narração sem enredo. Meros personagens sem papel. Éramos o lapso d'algum autor sem inspiração. Rascunhos fragmentários duma imaginação obsoleta. E vi do outro lado do caderno, na outra página, os olhos teus perdidos nos meus. E quis-te. E por querer-te, inventei as partes não escritas. Não sei se nosso autor de fato quis que fôssemos mais do que personagens dispersos. Sei que juntos criamos e recriamos páginas de mundos imaginários. Juntos demos ao nosso autor um final. Final? Quem o escreve, afinal? Escreveste-me mais do que uma vez. Escrevi tuas linhas também. Escrevemo-nos sempre que pensamos que já não existimos. Escrevemo-nos sempre que erigimos muros em nosso entorno. Escrevo amor e aventura. Escreves paciência e acolhimento. Escrevi um mar entre nós. Escreveste o medo do meu afeto. Algumas vezes escrevemos até personagens secundários. Mas sempre escrevo que não esqueço-te. E sempre escrevo-te para que não esqueça-me. Sempre antagonizamo-nos Sempre somos os nossos protagonistas. Para sempre presos aos nossos papéis neste livro dum autor desconhecido.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Monólogo da janela

Estive a procurar a constelação do teu nascimento. Almas partidas, perdidas, onde moram? Eu não conheço as estrelas. Mas contemplo-nas. E elas pousam a minha janela sempre que o Sol se despede. Vigiam meu sono. Testemunham as minhas insônias. Vejo o centauro correr no céu. Sempre mais longe lança suas flechas. E sempre mais longe as anseia lançar. E quanto mais corre, mais sua amada constelação foge de si. E tu foges de mim. E o instinto do lado equino age sempre pela impulsão. E caminha errante. Não, nunca caminha. Corre, pois tem pressa e medo de perder tempo. Tempo é existência, é vida. E o que é humano no centauro, quer sempre saber o que não sabe e o que sabe duvida que saiba só para que os que sábios são ensinem novamente. Às vezes o centauro para quando vê bifurcações. E trifurcações. E escolhe um caminho. E erra muitas vezes e perde-se na floresta. E desespera-se. Até que vê uma linda e frondosa árvore. E uma pedra engraçada. E um bichinho desconhecido. E sente a chuva cair devagarinho. E ouve as aves que gorjeiam. E pensa que se perder é talvez a única forma de se achar. E que digam que sua alma é perdida! Que mal há? Minh'alma é também partida. Somos dois? Somos um? Confundo-me agora. Antes que pudesse tua constelação encontrar, o céu enublou-se com nuvens avermelhadas. Nuvens vermelhas do que nosso fado. Não esse fado que ouço agora. O outro fado. Aquele fado que toca sempre quando desapaixono-me por ti. E que não termina sem que antes esteja eu mais uma vez perdida em tua constelação. Perdida nesta floresta misteriosa, fria, silente e ígnea que é o querer-te. E que traz-me à janela. E faz-me perguntar aos céus quanto tempo ainda tenho. E se nossos tempos podem juntos caminhar. E mais uma vez vejo que o sono começa a falar. E o ar gélido lembra-me que são horas de fechar a janela. Minha janela que de tanto o teu nome ouvir procura comigo tua constelação.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

À lápis

Penso que nunca contei. Mas a verdade é que escrevo a minha história sempre à lápis. Não consigo confiar na caneta. Ela parece-me tão definitiva, tão imutável! E quero que a minha história seja como um rio. Sempre águas diferentes. Outras águas. Entretanto não penses, meu mais querido entre todos os outros e, ainda assim, inomenável senhor, que a minha história escrevo à lápis para mais tarde apagar supostos erros e desvirtuações. Não. Os erros eu não apago. Antes, risco-nos com meu lápis. Faço tal coisa a fim de não tornar a lê-los constantemente e, com isso, perder o foco, deixar de lado o tanto que ainda tenho a escrever sobre a minha história. E não apago-nos pois não quero iludir-me de que os erros não ocorreram. Quero rememorar que erro sim. Sempre. Erras tu também, não é verdade? E sabes, meu mui estimado senhor, o que gosto em especial? Gosto quando partes da tua história misturam-se a minha. Gosto quando histórias tuas são minhas. Gosto quando histórias minhas são tuas. E bem sabemos, também escreves histórias. E o fazes tão bem! As tuas histórias são as mais perfeitas histórias que já li, senti, vivi. Hão-de dizer que foi o amor quem agora falou. E tu, sempre tão descrente, hás-de sugerir que tudo não passa de encantamento. Insto-te apenas, meu bem, que leias todas as minhas histórias. Se assim fizeres, saberás que engana-te. Não notaste que estás em todas as minhas orações? Carrego tanto de ti em mim! Ficção, vida real, sempre presente. Preciso despedir-me. O lápis apressa-me. Quer continuar a correr e correr sobre o papel. Sempre travesso. Sempre instintivo. Sempre suave. Mas antes, peço-te: escreves comigo um dia? Talvez o final da história. Talvez o começo. À lápis.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A conversa notívaga

Quem dorme? Eu não durmo. Não consigo. E já nem tento. Tu dormes? Sabe aquela conversa que nós nunca tivemos? Ela está aqui. Viva, extensa, eterna. É, é ela. Há quanto tempo não conversamos? Não,não falo dessas frivolidades que dizemos um ao outro e fingimo-nos satisfeitos. Estou a falar de uma conversa de verdade. De falar e falar e expor o que temos dentro do coração. Será que podemos conversar agora? É que eu preciso mesmo falar. Preciso que compreendas o que eu digo. Podes, por favor, prestar atenção em mim? É que faltava-me coragem. Estive pensando em nós. Nas nossas conversas antigas. Falávamos sobre tudo. Sinto tanto a falta disso! Não, mentira. Eu falava sobre tudo. Acho que obriguei-te a gostar de mim. A culpa é toda minha. E fui eu também quem fez que deixasses de desejar-me. Eu sei que errei primeiro. Nada faz sentido. Acho que é o sono. Mas tenho medo de pegar no sono. Vou perder a coragem de falar. Será que amanhã vais me escutar? Falta pouco para amanhecer. O dia quer clarear. Minhas pálpebras pesam. Não posso dormir. Não quero que o amanhã se transforme em hoje. Lembras da nossa primeira conversa? Acho que não. Eu lembro. Eu a planejei. Eu queria-te tanto e tão bem! Será que amanhã ainda vou gostar de ti? Estou a perder as forças. O sono está a vencer-me. Mais uma vez adio nossa conversa. E nossa vida vai ficando para um depois que nunca há-de existir. Ficarei cá só mais alguns minutos. Prometo voltar logo para a cama. Nossa cama fria. Dorme. Eu durmo. Não sonhamos. Os sonhos, estes também ficam para depois. Quem dorme? Tu dormes belo e sereno. Meu anjo intocável. Conversamos amanhã.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Um violino em Madrid

Cá estou sentada à escadaria da Catedral de Nuestra Senhora da la Almudena. Um homem toca violino. Perco-me. Sempre perco-me. Em lugares, em palavras, em pessoas. Perco-me em olhares e em silêncios. E em violinos.Cá estive no sábado. Lembro-me de estar triste e pesada e de sair capaz de voar novamente. Gosto do som do violino. Gosto do som das moeda serem depositadas na caixa do violino. Gosto de ver toda essa vida ao meu redor. Casais apaixonados beijam-se, tocam-se. Pais afetuosos conversam e brincam com seus filhos. Amigos olham-se nos olhos enquanto trocam ideias. Pessoas vão. Outras pessoas vem. O violino não se cala. Nem a vida. E cá continuo a esperar. Não sei o quê. Não sei porquê. Não quero ir. O violino analgesia-me. E o tango que agora soa faz-me viajar. Imagino um homem alto e de pele morena aproximar-se de mim e, com um simples gesto, convidar-me para dançar. E num instante, sinto-me solta nas constelações. E agora saem do violino as notas de "Con te partiro". Mas eu parti sozinha. Sempre sozinha. Sempre sozinha? De onde vem esse medo? Do que tanto tenho medo? O que dói eu não sei. Só sei que dói incessantemente. Mesmo acompanhada, estou sempre só. E afinal, quem nunca abandonou por medo de abandono? Partir. É, faz sentido. Quem não parte-se ao partir? São tantas partidas que acumulo em vinte e dois anos que chego a perguntar-me: o que resta de mim? Que parte minha pertence-me? Um pai pega sua filha e carrega-no colo. Que saudades dos tempos em que eu tinha direito a receber colo! Saudades de sentir-me abrigada e protegida pelo simples fato de ter braços ao redor. Agora o violino incessante acaba de vez comigo. No ar propaga-se uma canção medieval que lembra-me infância, desejos secretos e amores perdidos. Amor perdido. Amor nunca encontrado. A hora da partida está a aproximar-se. Eu não quero partir. E se eu tocasse violino? Saberia falar o que sinto através de notas já que com palavras parece que nunca irei sabê-lo? Passa um casal. Ela sorri e fixa seu olhar nele. A mão, ao lado dele, parece inquieta. Ele sorri, diz algo e abaixa os olhos. E continuam a caminhar lado a lado. Nenhum toque. Nenhuma aproximação. A cena contrasta com a música romântica. A cena contrasta com a Espanha romântica qu conheci nos últimos dias. Parto. Parto-me novamente. E deixo parte parte de mim com estes quatro amigos que sorriem e abraçam-se livres de preconceitos bobos. E outra parte com este violino de Madrid.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fim de Primavera

E foi-se a Primavera dos meus dias. Chegado é o Verão. Não é que não existam mais flores, mas estas foram ofuscadas pelo brilho do sol. E foram-se os versos da vida minha. Em prosa se fazem os meus dias. Poesia é para quem vive em eterna Primavera e eu, quem diria, decidi aceitar o fim da minha Primavera. O sol já não é ameno, queima a minha pele. Marcou-se o meu espírito. Os amores já não tem tons suaves de azuis, rosas, verdes. Agora eles tem a intensidade fugaz dos vermelhos, laranjas, amarelos... Acho que os amores de Verão nem sequer amores são. É tudo quente. Tão quente que ao fim do dia descubro-me cansada, acabada, nauseada. Mas é mesmo assim que se vive em Verão. Andei a pensar que deveria ter aproveitado mais minha Primavera. Ter visto as tulipas florescendo. Não consigo lembrar-me ao certo do dia em que o Verão chegou. Foi um processo lento, gradual e ao mesmo tempo, rápido demais. É tanto calor! E estes mergulhos em águas incertas só o abrandam por alguns poucos minutos. O corpo pede mais. O espírito pede paz. Entretanto, bem sei que a vida é sempre cíclica. A Primavera há-de retornar. Porém, antes é preciso que o Verão continue a queimar minha pele. E que as marcas façam-me lembrar dos dias de sol. E que venha o Outono e que a árvore dos meus dias dispa-se das suas folhas dos preconceitos, medos, receios e recuos. E dos desejos não realizados. E que venha também o Inverno com seu frio e suas solidões. E que o vazio dos seus dias cinzentos deixem-me receptiva ao inesperado. E então há-de vir a Primavera. E das sementes adormecidas brotarão flores. E com um pouco de sorte encontrarei quem as saiba colher.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Entranhas

Perco-me sempre neste transitar das tuas palavras não ditas. Tuas palavras malditas. Não sei ao certo que ler nestes teus olhos acusativos. Estes teus olhos que só fazem causar-me indigestões. E oferece-me tua alma. Diz-me teu preço. Que pensas? Acaso sou alguma espécie de diabo ou demónio? Não interessa-me o preço da tua alma. Se ela está à venda, não interessa-me. Tu não vieste das minhas entranhas, mas persiste em nelas morar. Somos sempre as mesmas palavras derramadas. As mesmas palavras entrevadas.As mesmas malditas palavras. Não cansaste-te disto? Tuas litanias ferem os meus ouvidos. Desconcertam-me. E vejo que viciei-me no amargor dos teus lábios. Só teu veneno cura-me da paz abominável. Viciamo-nos nesta brincadeira de fazer doer. Tens a arte da contemplação dos olhos meus rasos d'água. E eu, só eu sei como preferes que cravem-te o punhal. As tuas notas, todas as notas da tua canção de leviandade penetram-me desde antes dos nossos olhos se estranharem. Nossos olhos, que a despeito do espaço, insistem em se enterrarem. E as palavras esquecidas, existiriam de fato? As palavras,tais quais espadas afiadas, tornam as feridas cada vez mais profundas. E nossos grilhões? Quando os deixaremos? Sete vezes tentei fugir. Mas minhas entranhas ainda guardam o perfume do teu silêncio.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O mar e seus desejos

Resolvi dar as costas mar. Sua poesia já não me encantava.Abri meus olhos, parei de sonhar. Como as ondas eu regressara. Parti sem um rumo certo ter. Não escolhi qualquer destino. Fugia daquele que era o meu desatino. O vento forte guiou-me ao deserto. Através das areias quentes vaguei. Por entre dunas e rochedos andei. Mas minhas entranhas ainda recordavam do perfume que escondia-se sob teu olhar perverso. E será que fomos mais do que palavras derramadas? E a cada passo que dava, o vento apagava as minhas pegadas. E entardeceu. Entardecemos. E agora, o que restava-nos se nem o sol mais tínhamos? E o que eu lembrava-me eram pedaços do cheiro do mar. E acredite-me, a estas lembranças entrelaçavam-se fragmentos teus. E quanto mais longe eu sentia-me do oceano, mais alta era a sua canção. E toda aquela areia a minha volta a enlouquecer-me... E o mar tão longe! Tão perto! E a chuva eu esperava. E a chuva nunca chegava. E as vozes suplicavam-me pelo mar. E eu rendi-me. Fraquejei. Voltei. E entreguei-me ao mar. E dilui-me. E o mar tragou-me. E tu nem reparastes. E não existo mais. E eu existo, aliás. O mar sou eu e eu sou o mar.

sábado, 12 de maio de 2012

Às margens do tempo

Gelam-me as mãos e os pés. Gela a minha alma. E começa a aquecer o tempo. E nós, temos mais tempo? Não temos tempo. O nosso tempo acabou. O nosso tempo nunca foi.E não entendo esta minha mania de tocar no passado. De lamentar o passado. De respirar o passado. Para a eternidade será ele o meu mal resolvido assunto. E todas as outras histórias que tento tecer no meu tapete acabam por enlaçar-se nesta história antiga. Tempo. Qual tempo foi nosso tempo? É pena o nosso tempo não ser o mesmo tempo. És passado? És futuro? Presente não és. Isto sei. Será que nunca presente serás? E por vezes nossos diferentes tempos entrelaçam-se. E confundem-se. E perco-me. Mas meu destino são águas de um rio que flui para o mar. E meu presente, por ora, é a terra, esta terra. E o tempo? Qual tempo? Não sei que tempo é o nosso tempo. Só sei que foi teu fluir calmo e constante que avassalou-me. Todos os meus segredos, tuas correntes os levam. És presente. O nosso tempo é agora. Mas nosso tempo não demora. E o silêncio. Por que foi que desaprendemos a ouvir o som do nada? Teu silêncio é um tormento. Tua mudez desconcerta-me. Desalinha-me. E acalma-me. E o tempo? Muda o tempo. Este é nosso tempo? Chove. E permaneço às margens de ti.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Memórias imaginadas

Essa estória não é sobre você. E nem sobre eu. Essa estória é sobre nós dois. E é sobre nossas vidas imaginárias. É sobre o afeto que um dia logramos ter. Sobre as mentiras veranis. Essa estória é sobre estradas perdidas que se cruzam no entardecer das vontades. É a estória do medo. Era o medo o que nos unia. Medo de nada. Medo do nada. Medo de tudo de repente, ser nada. Medo das nossas invenções. Foi o medo o que nos separou. Não era preciso muito. Não era. Só era preciso o mundo.E o mundo era tão grande! E o mundo ficou muito pequeno. E fui imaginando outros mundos. Criando nomes e conceitos, frases e feitos, almas e pecados.E tu fostes também imaginando mil palavras e empregos destas. Inventastes sóis e luas, animais e plantas, florestas e mares. E inventou-me. Mas de repente, as tuas metades se espalharam pelo sofá e ao recolhê-las, percebi que não valiam uma única palavra do jardim morto. Pois tantos sonhos se perderam naquela estrada densa! E o medo aventureiro teimava em perseguir-nos. E a imagem do paraíso voltou a infernizar-nos. E novamente, fez-se entre nós um vazio completamente cheio de nada. E ao fecharmos nossos olhos ainda sentíamos o calor dos nossos abraços desfeitos. Sentíamos o calor que nunca existiu. E eu não pude salvar-te de ti. E tu não pudestes salvar-me de mim. E perdemo-nos. E o nosso livro ficou pela metade. Eu sou um livro. Não sou teu livro. Não quisestes escrever em mim a tua estória. Não sou um livro. Eu sou teu livro. Foi tu quem inventastes-me. Somos um livro de memórias imaginadas.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Humanidades

Pendurei minhas asas à janela e segui o som do vento.

terça-feira, 20 de março de 2012

A resposta

Porque as feridas ainda estão expostas. E toca nelas quem bem entender. E abstenho-me de ver. Não posso. Não quero. Mas não mais me absterei da fome de tempestade.
Perdoe-me se em tua jaula não entrei. Eu vi a armadilha. E eu dancei sobre ela. E ri. Não há venda em meus olhos. Pena que não reparastes! Poupei meu tempo. Poupei teu tempo. Não agradece-me?
Tão ingrato permanece! O tempo não muda-te. O tempo é uma ilusão. A mudança tua também o é.
E as vozes tornaram a falar. E pressagiei o silêncio. E veio a tempestade. Silêncio e vozes. Silêncio. E vozes.
Com o Corvo aprendi o "Nunca mais". E nunca mais me esquecerei desta lição. Só as paredes contemplarão minha loucura agora. E as palavras, entenda-nas quem puder. Entenda-nas se quiser. Mas é certo que não deixarei marca alguma amargar meu espírito.
Chama tua pele pelo meu nome? Perdoe-me, mas meu espírito só se saciará agora com aquele que diz "devora-me".
Porque as feridas ainda estão expostas. Mas toque nelas e irá se arrepender.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Dizem as vozes

E foi inesperadamente que a paz perdi. Eu procurava as palavras, mas estas fugiam-me. Busquei alívio em versos, poemas, prosas, sentenças... Em livros e mais livros escondi-me. Entretanto, em nenhum deles morava a minha paz.
E a vida fez-se fria e vazia. E o tom que nunca possuí,perdi-o. E o mundo não deixou de mover-se. A banda não parou. O Universo, em momento algum, se calou.
Então, as palavras perderam seus significados. Ficaram todos dispersos, suspensos no ar. A significância dos vocábulos partiu para um mundo essencial.
E para completar-se plenamente a inquietude interior minha, as palavras continuaram por aí, a circular libertas, travessas, a resvalar das montanhas e das línguas, a causar grande confusão pois, afinal, de que serve-me palavras que nada querem dizer?
E tudo no mundo perdeu o sentido. Virtudes e vícios, como distingui-los? E o bem? E o mal? Qual a diferença entre o útil e o fútil? O que é racional e o que desconhece completamente a razão?
Mas foi então que notei que o demônio em mim sorria ledamente e abençoava o caos. Foi assim que percebi que é só no desconcerto das ideias, na fragmentação das palavras e no completo desarranjo de sentimentos e significados que o meu mundo faz sentido. É na falência dos amores, nos conceitos desfeitos e nas imagens rarefeitas e incompreensíveis que minha mente trabalha e meus sentidos despertam.
E a paz? A paz? Quem disse que é paz o que hoje eu quero?

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Diário da Lusitânia: de como caí de paraquédas na terra de Camões

Meu querido leitor deve estar a perguntar-se:"que faz esta cronista louca em Portugal?" Pois bem, já explico-me. Certo dia, entre minhas correrias desesperadas diárias na busca alucinada por dar conta de aulas mil, monitoria de Matrizes Clássicas e minicurso de Literatura Medieval (Sem falar em pesquisas para trabalhos alheios, culpa da minha cara de panaca e incapacidade para dizer não.), recebo um telefonema de minha mãe (Na verdade, não foi tão simples como fiz parecer: ela ligou-me umas trinta vezes, mandou-me umas cinquenta mensagens de texto e ainda uns vinte, vinte e cinco sinais de fumaça.)dizendo-me que haviam me ligado da faculdade e que eu deveria ir à secretaria com urgência. Pensei:"ferrou!Que fiz desta vez?" Brincadeira, imaginei que fosse algum documento faltante (Acho incrível a quantidade de documentos que despejamos na universidade!Sinceramente, até hoje não sei para que serve muita coisa que na secretaria deixei, aliás, pergunto-me se na secretaria sabem para que serve...Se bem que, dada a quantidade de maconheiros de plantão, deveria-se pedir também exames de urina...). Quando cheguei à secretaria (e aí deve imaginar meu amigo leitor que minhas dúvidas foram sanadas), pediram-me para deixar meu nome, telefone e email. "Hã?!? Como assim? Para quê?" Uma amiga menos desavisada disse-me que era para estudar em Coimbra. Pensei: "Beleza! Deve rolar alguma prova e tal, mas tranquilo!, é só estudar."
Desde uma aula de Matrizes Clássicas Romanas que tive no meu primeiro semestre na faculdade,fixei como alvo a Universidade de Coimbra. Pode parecer bobo, mas foi por causa de um livro de literatura clássica latina cuja editora era a U.C.. Um brasão tão bonito! Eu simplesmente precisava saber mais. Dei uma pesquisada básica em São Google e, depois de muito fuxicar,decidi que seria nesta universidade que eu faria meu mestrado em Literatura Portuguesa. Já tinha tudo planejado e, para manter meu propósito vivo, baixei uma imagem do brasão e pus no meu Livro dos Desejos( que é história para uma outra crônica, num outro dia...). Tivemos uma entrevista que consistiu basicamente na seguinte pergunta: "vocês querem estudar em Coimbra?" (E aquela vontade imensa de dizer: "Hello, o que estou fazendo aqui? Pensa que não tenho nada a fazer? Estou matando uma aula muito importante para ouvir uma perguntinha dessas?". Mas respirei fundo,abri o meu maior e mais belo sorriso e disse:"Claro!").
Mas passaram-se dias, semanas e meses. Silêncio. Um amigo e eu passávamos sempre pela secretaria para perguntar as novidades, se já havia alguma resposta e nada. Estava já a ver o dia que poriam nossas respectivas fotos no mural com uma inscrição: "Todos são bem vindos excetuando essas pessoas."
Entretanto, a vida corria normalmente. Continuei a trabalhar no meu projeto de monitoria (A pretensão era fazer um puta artigo com direito à poesia clássica,modernista, Semiótica e estética da intensidade.), dar umas paqueradas (Que não deram em nada, que conste nos autos. Mas tentei,já vale,né?), conhecer gente nova, redecorar meu quarto...enfim, tudo que se faz normalmente para manter a permanência em terra firme interessante (ou ao menos tolerável).
Então,num belo dia de vagabundagem (férias de julho), recebo um email avisando que havia sido aceita e precisava resolver tudo: passaporte(Claro que eu não tinha um!Nunca havia visto mais gordo!Os lugares mais distantes que eu costumava ir era à São Paulo ou Minas Gerais, para casa de parente...), visto e essas porras todas que a gente adora ter que resolver num país com tão pouca burocracia como o nosso! Meu caro leitor,foi tenso! Muito frenesi, idas ao consulado, polícia federal, polícia civil, médico, agências de viagem...uma verdadeira odisseia.(Não que meu diário percurso Japeri-Niterói-Japeri já não fosse coisa de Ulisses...)Eu não tinha noção da capacidade humana em estressar-se e causar estresse! Aprendi tudo neste período! Ainda tive tempo para cineminha com paixões platônicas nunca correspondidas, choppadas com amigos, visita à faculdade (para visitar amigos e professores...Mentira! Era para ver um "amigo" que nunca passou de amigo por não entender ou fingir não entender minhas sutis insinuações...)...
Mas vamos lá, despedi-me de meus amigos de pelos, minha mama querida(e sua comidinha maravilhosa!), meu irmãozinho e melhor amigo, meu quarto fofo,meus amigos, minha manicure perfeita,minha universidade,meus amados professores(juro que é verdade!), minha vida...Parti para o desconhecido, de peito aberto, pronta para me aventurar, navegar por outros mares, caminhar por novas terras,ver, sentir, ouvir, provar, cheirar coisas diferentes(Pelo amor de Deus,não estou falando de drogas!)... E acá estou,como dizem os lusitanos, há dois meses nas terras de Camões. E que dois meses!Mas isto é assunto para outra crónica. É tarde,preciso dormir pois amanhã tenho um encontro com Padre Antonio Vieira...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Esses Homens!?!

Pobres homens! O mundo está a avançar mas parece que eles não conseguem se atualizar. Queridinhos, aviso: nós, mulheres, já não somos as tolas e bobas de outrora. Abandonamos por completo nossa função de capacho humano. Nossa espécie adaptou-se e evoluiu!
Não é que sejamos demônios de rímel e salto alto como creem alguns, mas aprendemos que o segredo para se ser valorizada é, acima de tudo, valorizar-se. Aprendemos também que racionalizar tudo é besteira. A vida foi feita para ser vivida e não explicada.
Mas parece que certos homens não entendem, ainda vivem à margem da contemporaneidade. Só para começo de conversa, os homens tem a estranha mania de achar que, se levarem uma mulher para cama, ela acabará se apaixonando, acham que seus pintinhos são varinhas mágicas capazes de transformar tesão em amor. Hello!?! Homens, se liguem: não é só porque a montanha-russa foi divertida que hei de a instalar em minha casa! Há muito se foi o tempo em que mulher não sabia dissociar sexo de amor.
Outra das "ideiazinhas" masculinas e achar que toda mulher quer se casar. Meus amores, casamento para quê? Não é que eu seja contra relacionamentos ou algo assim, mas hoje em dia, nós ficamos com um cara porque queremos estar com ele e não porque precisamos . E quando digo que não mais precisamos, não falo só economicamente, mas também na esfera afetiva. Algemas, quer dizer, alianças, são inteiramente desnecessárias. Não era isso que os homens queriam? Desde criança tenho ouvido aquele velho discurso masculino de que já não suportam muheres pegajosas, emocionalmente dependentes e Blá! Blá! Blá! Pronto, está feito, conseguiram.
Contudo, parece que o homem não consegue lidar com isso. Acho que pensam: "se ela não precisa de mim, como a conquistarei?". Digo-lhes: é aí que está mágica. Se apesar da não necessidade uma mulher escolhe estar com um cara, é porque, no mínimo ele a atrai. Não é muito melhor assim? Nada de joguinhos, dilemas, crises, etc. Mas não, o homem tem arranjar ideia e inventar alguma zica. Pura incapacidade de lidar com as mudanças. Crianças, adaptem-se, evoluam ou se extinguirão! Já é fato: homem só é necessário para abrir vidro de palmito! É bom que sejam criativos e pensem em formas diferentes de se tornarem indispensáveis.
A coisa anda tão diferente, que tenho uma teoria de que o homem de hoje é a mocinha de antigamente. Estão, só para começar, cada vez mais vaidosos, sentem uma necessidade tamanha em aparecer, expor suas figuras. Deram para bancar os sentimentais. "Porque você falou assim comigo e me magoou", "Você não falou comigo no dia seguinte", "Você me olhou com desprezo" e coisas do tipo. É uma frescurada tamanha.
Conclusão do assunto: homens não sabem o que querem. Exato, amigas, eles passaram séculos aprlicando esta afirmativa à nós, mulheres, e agora estão nessa. Eu não entendo mais nada e nem sei se quero entender. Façamos o que aprendemos com eles: nos divertimos um pouco e, quando não mais o suportarmos, desligamos o celular.

Epitáfio

Não sou do tipo suicida, mas às vezes penso em morrer. Vontade que dá e passa. Vontade de morrer, mas só um pouquinho, só para sentir como é não sentir. De qualquer forma, ainda não estou pronta para a morte definitiva.Antes de morrer, quero escrever o que será lido em minha lápide.
Entretanto, o que poderia dizer sobre mim?
Sou sagitariana e florbeliana. Sou todas essas Anas possíveis e impossíveis que existem e subexistem dentro de mim. Às vezes sou Pedro também, quando luto contra lágrimas, quando pego o botijão de gás, quando chego em casa no último ônibus, a última passageira.
E as Anas? As Anas são muitas, todas elas se amando e se odiando, entre a sombra e a luz. Tenho a Santa Ana, a mais chata de todas as Anas, que insiste em acreditar que tudo pode dar certo e ama incondicionalmente. Esta Ana tem o vil defeito de julgar os atos humanos, inclusive os seus. É esta que acredita que de fato deve existir Deus em algum lugar na imensidão do Universo.
Existe a Ana aventureira que sonha com uma paixão avassaladora por um arqueólogo que a faça ganhar o mundo e conhecê-lo assim como conhece seu rosto refletido no espelho.
A Ana vaidosa tem sobrevivido, embora não saia muito de casa atualmente. Essa Ana adora pintar as unhas e sabe que a calcinha que se usa com uma calça jeans é muito diferente da que usa-se com um vestido de malha. E por falar em calcinha, existe até uma Ana bacante que é uma Ana que poucos mui bem escolhidos viram se revelar. Esta Ana sabe que só se vive uma vez e, por isso, quer vivenciar tudo em cada célula, em cada pequena fibra do seu corpo e da sua alma.
E há também, não nos esqueçamos, a Ana sonhadora que é a pior de todas as Anas. É esta Ana que se crê escritora e tem a estranha mania de poetar. É a Ana que se apaixona e se ilude. É a Ana que está constantemente a esperar por algo que seja tão maravilhoso, tão perfeito que rompa com a lógica da Ana estatística . Esta, aliás, sabe que tem 99% de chance de escolher o cara errado para assenhorar-se de seu coração e que, mesmo se decidisse nunca mais sair de casa, teria 65% de chance de morrer antes dos trinta anos, morte que poderia variar desde um ataque cardíaco até uma explosão causada por um desastre de avião no seu quintal.
São muitas Anas e eu sou todas elas, que se manifestam juntas e separadas, em conjunção ou disjunção. Sou apenas mais uma mulher. Não paro o vento nem sei quantas estrelass há no céu. Para falar a verdade, eu sequer aprendi a assoviar. Não sou nada genial, não tenho um olhar fatal. Quando eu passo, não paro a rua. Não aprisiono corações, mas também não permito que aprisionem o meu. Não espero mais por milagres, acho que nem a Santa Ana. Não volto para ex-amores.Não me conformo em assistir um filme apenas uma vez.Tenho fobia de borboletas. Às vezes choro sem saber porquê. Não acredito em amor à primeira vista. Às vezes falo sem saber o que dizer, o que é um péssimo defeito, eu sei. Sou apaixonada pelo cheiro de terra molhada e vou contar um segredo: não penteio o cabelo todos os dias. Fico entediada no inverno. Muito entediada.
É, pensando bem, eu até corro atrás do vento de vez em quando. E conto as estrelas.
E o epitáfio? Não dá para escrever tudo isso no meu túmulo. Mas eu sou tudo isso. E muito mais. Não somos todos nós, paradoxalmente únicos e vários ao mesmo tempo? É, de fato, preciso de mais algum tempo para descobrir como posso me definir em tamanho suficiente para a inscrição num túmulo.
Enfim, sou sagitariana e florbeliana. Sou todas essas Anas possíveis e impossíveis que existem e subexistem dentro de mim.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Os violinos orgásmicos de Vivaldi

Senhores críticos de música que venham, quem sabe algum dia, a ler o que estou a escrever, perdoem-me, por favor. Sou apenas uma inocente cronista que, paralelamente adora música clássica, mas que desconhece toda e qualquer parte técnica do assunto. Tudo o que posso dizer, e direi, basea-se nas sensações que me causam a música, nas ideias a que me remetem.
Caminhemos, entretanto ao nosso assunto: o leitor já teve o prazer de apreciar "As quatro estações" de Vivaldi? Ao menos os movimentos de "Primavera" deves conhecer devido a um comercial duma famosa marca de sabonete cujo nome não citarei já que nada ganho com propaganda. Enfim, é um concerto fantástico! Na minha humilde opinião, entretanto, é no "Allegro de Inverno" que se encontra a alma deste clássico.
Começa com um suave e insinuante violino. É como o toque de pele com pele, aquele primeiro contato pseudo acidental que prefiro crer como manifestação do mais primitivo instinto animal. É um cruzar e descruzar de pernas incessante. É a total impossibilidade de ouvir ou ver qualquer coisa que não seja o seu objeto de desejo. É taquicardia involuntária. É o pensamento fixo no objetivo de conduzir outrem a querer o que tanto deseja.
São olhos que se tocam, olhos que se acariciam, olhos que se despem, olhos que se penetram.
Depois são pernas que acariciam pernas por baixo da mesa. Mãos que deslizam por rostos, braços, costas... E aí vem aquele frenesi dos violinos: corpos que se encontram, corpos que lutam, corpos a brincar de querer-e-não-querer, de ir, voltar, ficar.Perto e longe. Perto e longe.
E entra a orquestra. Imperiosa, provocativa, a tentar disputar espaço com os violinos como se fossem mãos a empurrar um corpo contra a parede ou para uma cama. Corpo sobre corpo. Pele com pele. Cheiro de canela. Gosto de cravo e gengibre. Calor. Calor não do Sol, mas do fogo à quase queimar a pele.
De repente, violinos, pernas, línguas, orquestra, braços, peitos, lábios, dentes, olhos se entrelaçam, se beijam, se tocam e se invadem num movimento rítmico, numa compulsão por transcender o intranscendível, numa necessidade visceral de materializar o enlace espiritual, de transformar o querer no ter. E por fim, vem o ápice: os violinos gemem num orgasmo avassaladoramente pecaminoso e ingênuo!
E volta-se à suavidade. Corpos entregues a uma tímida analgesia descansam da tempestade.
Mas os violinos voltam a ranger e lembram a respiração ainda ofegante que intercala-se à beijos famintos, lábios ainda não saciados. Logo, num instante, a orquestra solta um júbilo de gozo quase tão perfeito quanto o primeiro, levando corpos a uma exaustão ígnea.
E a música cessa. No entanto, o risinho malicioso fica em nossos lábios e a memória sensorial nos traz aquele olhar "de cigana oblíqua e dissimulada" tais quais Capitus que fomos, somos ou seremos. Com ou sem violinos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

E que venha 2012!

Querido leitor, acabemos com essa palhaçada que são essas crônicas!Nunca mais vou escrever. Cansei, parei. Você não as lê mesmo. Não vai fazer diferença. Convenhamos, a vida é uma grande, enorme tigela de merda e não deixará de a ser com meus escritos. As pessoas são idiotas, mesquinhas, egoístas, mentirosas, fingem tão perfeitamente se importar com as outras que quase chegam a enganar a si mesmas. Se vestem da máscara de bons amigos esperando obter algum lucro, qualquer lucro. Matam pelos motivos maus imbecis possíveis. Trapaceiam. Falam demais ou, ao inverso, não tem voz quando é necessário (e entre esses, eu me incluo).
O planeta mais paece uma bomba prnta para explodir à qualquer momento. As músicas agora são monossílabas, isto quando não são apenas alguns gemidos imcompreensíveis. Política me faz quase vomitar. (Tiririca e Romário são deputados!) E como se não bastasse toda essa merda, "Crepúsculo" é um best-seller!
Pensando bem, querido leitor, não só vou parar de escrever como também irei me suicidar. Ainda não sei como irei fazê-lo, mas precisa ser bem poético. Aceito sugestões. Mas nada que cause dor, por favor! Sou suicida, não masoquista.
Vou começar meu plano fatal ecrevendo uma carta daquelas bem passionais. Vou jogar pra fora toda essa porra que fica presa na minha garganta, tudo que fica gritando na minha cabeça. Vou começar a carta com: " Aos idiotas que na terra permanecem".
Aliás, por falar em permanecer, para onde será que eu vou quando morrer? Sou algum coisa entre agnóstica e ateia, mas, digamos que este ser ao qual chamam "Deus" de fato exista? Neste caso, estou ferrada. Ou será que existe o seu dos ateus?
Pensando bem, bom mesmo deve ser o inferno. Samba. cerveja e churrasco. Não dizem que o lugar é quente? Deve ser mais ou menos o Rio de Janeiro em eterno fevereiro. Sem falar que os melhores devenm estar lá: de Cleópatra à Napoleão, de Flaubert à Florbela Espanca, passando por Gregório de Mattos, Noel Rosa e Jorge Amado.
Será que no inferno tem plano de saúde? Melhor eu procurar me informar. Será que nas missas que eu não falou-se sobre isso?
Pensando bem, a politicada deve estar toda lá também. (Ou será que conseguiram comprar uma mansão no céu? Não duvido de nada vindo desse povo.) Só por garantia, é melhor eu me resguardar. Se encontro esses caras vou acabar sendo explusa para o inferno do inferno, ou pior, podem me mandar pra Brasília.
É, leitor, como diz um amigo, espero, do fundo do meu coração, que os maias estejam certos e que venha 2012.
Enquanto isso, fico por aqui mesmo, só para ver onde essa merda toda vai parar.E continuo a escrever também, pelo mais puro e delicioso sadismo.

domingo, 3 de abril de 2011

As histórias por trás das letras





Os livros estão carregados de histórias. Não, não falo do óbvio. Não me refiro às letras impressas, ao que foi dito pelo escritor. Não falo dos livros com páginas ainda coladas e cheiro de papel novo. Antes, refiro-me áqueles livros que já não são virgens, livros que foram lidos e relidos, ou que foram, por qualquer razão, ignorados em uma estante. Falo do livro que foi companhia em uma viagem, que foi analgesia para um mal do coração.Falo do livro que começou uma guerra ou, antes, que simbolizou um tratado de paz. Falo do livro que hoje tem as páginas amareladas, meio soltas. Falo do livro com cheiro de mofo, do livro que abre sozinho em certas páginas.Falo do livro que dormiu debaixo de um travesseiro, que foi escondido no fundo de uma gaveta. Falo dos livros que ganharam alma.
Tenho uma paixão nada secreta por tudo que é antigo: roupas, cabelos, móveis, línguas, costumes, fotografias e, é claro, livros. Adoro livros antigos!
Essa minha paixão pelo velho (sim, digo velho e não antigo livre de qualquer preconceito, uma vez que acho delicioso o som produzido por este vocábulo) leva-me com frequência a um lugar que chamo de pequeno paraíso: o sebo.
Nos sebos encontro muito mais do que simples livros. Encontro pedacinhos de história que parecem estar a esperar por uma alma gentil para que possam se libertar no plano da imaginação.
Uma excelente forma de um livro contar histórias é através de sua folha de rosto. Quem nunca deixou ali uma dedicatória, uma citação, um verso ou uma simples e misteriosa assinatura?
Dia desses, ao procurar loucamente por "Ressurreição", de Machado de Assis, topei comoutro livro que também iria precisar: "Os Lusíadas" de Camões. Mas este não era qualquer "Os Lusíadas". O livro que encontrei data de 1924! O livro estava caindo aos pedaços e, embora houvessem exemplares em melhores condições, foi este que decidi que merecia um novo lar. Minha habilidosa mãe logo deu um jeito nele que agora tem um aspecto muito melhor. O mais interessante, entretanto, ainda está por vir. Dentro do livro havia um bilhete que revela ter sido, o livro, um presente. O bilhete diz:

"Nenê,

Afim de bem conhecer o suave e riquissimo idioma que falamos, em que ha, para expressao do mais doce e nobre sentimento, a palavra saudade, inexistente em qualquer outra lingua com o mesmo vigor sentimental e intellectivo, ninguem póde deixar de haver perlustrado as paginas maravilhosas dos "Lusíadas", poema que é ao mesmo tempo um monumento philologico, poetico e racista.
Assim, para que V. se integre com os prodigiosos recursos vocabulares e syntacticos do vernaculo, dou-lhe este livro, que, de par com os conhecimentos que lhe facultará, ha de ter o condão de me fazer sempre lembrado por alguém que maneje com perfeição o idioma
"...em que da voz materna ouvi _ Meu filho!
e em que Camões chorou, no exílio amargo
o genio sem ventura e o amôr sem brilho!"
Oxalá lhe possa este volume servir, no estudo diuturno de moça intelligente e amante das boas letras, para consecução de uma solida cultura literaria da Lingua Portugueza.

Rio, 22 de outubro de 1936"
(grafia da carta foi mantida)

Após ler o bilhete, comecei a pensar na "moça intelligente e amante das boas letras" que fora Nenê e comecei a perguntar-me se não seria ela parecida comigo: uma estudante da Língua Portuguesa, uma apaixonada por Literatura. E quem será que lhe deu o livro? Um amigo? Um professor? Um apaixonado? Com certeza foi alguém que não queria ser esquecido, como deixa claro quando diz que espera que o livro faça-o "sempre lembrado por alguém que maneje com perfeição o idioma". E por que ele cita "saudade" logo no início do bilhete? Exemplo citado ao acaso para falar da singularidade da língua? Ou há nessa inocente citação um recado para Nenê? Teria todo esse bilhete cheio de eloquência o objetivo de dizer: "Nenê, sinto saudades. Por favor, não esqueça de mim."?
Há não muito tempo atrás, desenterrei outro livro de um sebo que ainda hoje põe minha mente a flutuar. Coleciono Agatha Christie e, quase sempre compro um exemplar. No "A morte no Nilo", encontrei a seguinte inscrição:

"Para Sueli (apesar de não merecer um presente meu)do seu "amigo",
Matias"

(trancrito como no livro)

Eu, que nada romântica sou, comecei a inventar uma daquelas paixões avassaladoras, com direito à malas e roupas arremessadas da janela e beijos desesperados em plena avenida movimentada. Imaginei uma Sueli imatura e verborrágica e um Matias sincero e ressentido.. Vi Matias passar em frente à uma loja e ver o livro que viu Sueli cobiçar dias antes da discussão onde juraram nunca mais se verem. E o vi comprar o livro e escrever a dedicatória no balcão da padaria e, logo depois, depositá-lo na caixa de correio de Sueli. E imaginei Sueli encontrando e livro, abraçando-o bem forte e correndo para o seu quarto para chorar. E vi quando ela correu à casa de Matias e, pedindo perdão, jurou nunca mais chamá-lo de imbecil, mesmo sabendo que logo tornaria a fazer isso.
Devaneios à parte, quando um livro chega às minhas mãos, penso nas mãos que antes de mim o tocaram e imagino as interessantes histórias que se encontram por detrás da história que conta o autor. Histórias que foram perdidas, encontradas, encaixadas, desconectadas, combinadas e recombinadas, e faço minha parte deixando um pedaço meu em cada livro para que se entrelace às outras e a ele dê vida.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher

É, queridas amigas,nosso dia! Uhu! Aliás, "uhu" sem força alguma. É quase metade do dia já e ninguém me felicitou. Ninguém. Será que minha ausência de peitos tem algo a ver com isso? Pode ser que os rapazes estejam se confundindo. Aliás, isso explicaria muita coisa. Estou tendo quase que apelar à certos homens, dizer: "meu irmão, sou uma garota, valeu? Sou meio despeitada, mas o resto é todo bem feminino."
Mas deixemos meus peitos à parte. Escrevi, há provavelmente um milhão de anos, um poemeto em homenagem ao meu gênero. E aí vai (aliás, acho que ninguém lê mesmo essa merda de blog, só minha amiga que está viajando. aff):


Aquela mulher



Eu sou aquela mulher
Eu sou só mais uma mulher
Sou todas as mulheres
Que você disse não.

Sou aquela mulher
Que lutou por democracia
Aquela mulher
Que hoje trabalha até em delegacia
Sou aquela mulher
Que não tem medo de entrar numa fria

Eu sou a mãe que amamenta
A esposa que acalenta
A namorada que faz
Sua cabeça pirar
Eu sou a filha que
Enlouquece o pai
A menininha que brinca de boneca

Eu sou aquela mulher
Eu sou só mais uma mulher
Eu sou todas as mulheres
Que você disse não
E dias depois disse sim
Então falei:
Agora eu digo não.



(Ágata Elandros)




Então, tchau. Beijinho.