domingo, 28 de dezembro de 2014

Selva morta

Algumas partes tuas eram partes minhas. Era o quase fim do mundo que passou por cima dos nossos corpos e nos devorou. Eram os desertos dos teus lábios quando a realidade era escondida. Era a minha pele misturada a tua sem que soubéssemos se éramos recomeço ou término de história. O punhal que estava ao alcance das nossas mãos, a oferta que recebemos dos deuses, foi levado pela última nuvem de corvos que passou. As nossas faces rasgadas perderam o azul melancólico do outono. Perdemos o chão. Só que nem tudo era ermo naquela história mentida aos inocentes cadernos entregues ao fogo. Não era tudo ermo. Ermas eram as tuas vontades, tuas metades, inexatidões de carácter. Ermos eram os meus medos, meus segredos, entremeios. Algumas partes minhas eram partes tuas. Era a indecisão entre o passado e o teu olhar de selva morta presente.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Poesia domesticada

O laranja cintilante em repouso sobre o mar lembra a tua tez iluminada pela geladeira aberta.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Saída de emergência

Acostumada ao desconforto do teu braço sob a minha nuca, o sono agora custa a chegar. Tento encontrá-lo na memória do teu cheiro, das tuas mãos invasoras e até do teu ronco. Mas as horas voam numa lentidão angustiante. O meu corpo confunde a ausência dos teus braços com doença e febreja. Talvez as nossas horas não tenham passado de lembranças fabricadas. Talvez as minhas pernas nunca tenham estado envoltas em teus quadris. Talvez tua língua nunca tenha se escondido entre as minhas coxas. E porque há sempre duas histórias nas minhas linhas traçadas_ uma que é narrada pelas palavras e outra, contada pelos silêncios_ o teu nome continua obscuro, escondido entre os meus lábios adormecidos. Eu, Madalena nunca arrependida, vejo nos teus turvos entremeios a analgesia para as minhas vontades espartilhadas. Acostumada ao teu corpo sobre o meu corpo sem quaisquer pudores católicos, não enxergo a saída de emergência.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Sobre tessituras e retalhos

E é chegada a manhã, e a agulha, que tão facilmente entrava em cada casa, escapou-me dos dedos. Perdoe a minha desatenção aos teus retalhos. Mas há muito de não dito nas tuas palavras tecidas sobre o papel. E já não ouço a voz do teu sangue desmaiado após um dia de agosto. Mas o teu nome bordado sobre a camisa ainda sangra. E teus olhos sempre serão este inacabado trabalho de Penélope. Quanto ao teu espírito, este continua a ser uma cidade despovoada, embora o corpo nunca o tenha sido. Não quero a tua tessitura a marcar a minha pele. Meu coração já esteve alinhavado ao teu. A minha bravura, hoje, entretanto, é desfazer este rude trabalho de costura. Já nenhum dedal empurra a agulha que cosia incansavelmente as nossas partes que nunca puderam formar um todo. A tesoura passeia pelo tecido e fragmenta todos os teus pequenos detalhes. A agulha e a linha agora repousam dentro da pequena caixa de madeira dos trabalhos costureiros.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Caso antishakespeariano

Esperança finda. História ainda. Reconto nossa história para encontrar sentido no eco das memórias falhadas. É que eu não te amava feito Julieta e tu nunca foste Romeu. Nenhum engano ou tragédia se interpôs a nós dois. Só frases interditas. Palavras mal ditas. Sílabas inauditas. Tentamos ser Antônio e Cleópatra, mas nos faltaram impérios, víboras, lascívia e romance. O fio que tecia a nossa história era o mar quando por nós atravessado. Agora é o mar que nos atravessa. E o fio não pode tecer lenço ou qualquer Iago, de modo que Otelo e Desdêmona passaram longe de nós. Nenhum grande ciúme envenenou nossas almas. Nenhum abstêmio juramento fizemos e, entre França e Navarra, nenhum trabalho de amor foi perdido. Só subjuntivamos nosso encontro. E se os olhos continuassem fechados? E se os lábios se encontrassem? Nem Hérmia ou Helena sou. Nem és tu Lisandro ou Demétrio. Nada de elfos ou uma noite tão longa de verão na nossa história. Entretanto, o outono fez das nossas vidas uma cidade sitiada. Longe de Verona, Alexandria e Atenas a história é finda. Mas as letras sobre o caderno cantam a esperança ainda.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Outono sem frutos

No nada que somos, a que todo representamos? Mil pedaços quebrantados trazem menor valia ao todo que era belo, etéreo? Que parte minha era tua? O que meus lábios roubaram dos teus? Hoje entrego a metade que a ninguém pertencia. Tenho medo do eco do silêncio que se fez. Mas continuo à espera do desafio do tempo. Os cacos do tempo também não me pertencem. E os fragmentos do amor que não teve forças para nascer foram abortados, desceram pelo ralo. O ralo. Todo o mal extirpado desce através do ralo. Pedaços meus, pedaços teus... Nosso sacrifício foi pesado em balança e considerado insuficiente. Não penso nos retalhos dos vestidos primaveris que agora só servem para cobrir a cama. Eu penso nas nossas almas retalhadas pela quimera. O peso do vazio que carrego é maior quando teus olhos pousam sobre o meu ventre. O ventre. O outono há-de passar sem o fruto do ventre. E o começo desta história fica adiado para outra estação.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Café e cigarros

Não compreendo o que mudou. Diga-me que parte nossa se inundou. É sempre mau tempo quando estás tão distante. Agora é tudo diferente. É tudo silente. A vida segue como um cigarro aceso ao lado de um ex-fumante. Como o convite para um café do ex-amante. Como o wisky na estante. A corda do teu violão partida. A minha carta nunca lida. Teu telefonema ignorado. Tua mensagem oculta no meu livro fechado. Nosso caso é o resultado de uma insónia coletiva dos deuses. Acaso haverá maior tentação do que a dúvida? Dúvida, dádiva, dívida: tantos erros! Mas contra vontades, perspectivas e diagnósticos nossa tragicomédia continua a ser escrita. O mar afogou-nos. Inundou-se o nosso lar. Muitas águas movem o nosso manuscrito de um lado ao outro. Mas, de repente, a corda do teu violão se parte e o meu livro se fecha. Tu lês minha carta. Eu atendo teu telefonema. E do cigarro aceso ao lado faz-se o convite para um café. E o frio se vai. A chuva se esmaece. E não entendo porque nossa história nunca muda. Somos vítimas do silêncio das pedras. Filhos do oceano que nos separa.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Entre frascos e bagagens

Nos meus lábios oclusões violentam os ouvidos teus. Coisas que só se vê quando os olhos se fecham. Olhos ateus. Os olhos são teus. A porta sempre se fecha no fim do dia. As feridas se abrem no fim da linha. Abrir e fechar. Fechar e abrir. Vivo em terra aonde até os fracos tem vez. Os fracos e seus frascos. Os frascos fechados. Meus frascos abertos. O pulsar já tão distante quanto a lua. A lua. Nua, desdobro-me. Redobro-me. Recordo-me. O corpo é agora pretérito mais-que-perfeito. A alma sempre fora o imperfeito. Abandono-me pela minha incapacidade em abraçar-te. A bagagem. A bagagem dobrou de volume. A bagagem tem mais vida que queixume. Fiz do meu abandono um reencontro. Reencontrei. Reconheci minha face no espelho. Para cada vírgula no meu caminho, imaginei um segredo cifrado. E todas as minhas esfinges não passavam de enganos interpretativos. Olhei meus olhos no espelho. Já não faz sempre mau tempo. Quantas tempestades tu roubaste do meu peito? Em tempo de recomeços, recomeço minha história da ponta ocre perdida no caderno escondido na mala cinzenta guardada debaixo da cama. Um dia tudo era precipício. No outro, tudo foi precipitação. Será que descobrimos um novo capítulo nos manuscritos do nosso autor? Em tempo de reencontros, reencontro uma parte perdida daquilo que hei-de ser. Deixo os frascos para os fracos.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O nome

O nome gritado da lama. Loucura é ópio, incenso, pena e perfume. Transgridem meus olhos e perdem os céus. Os seus. Seu nome. Um nome é fome de sentido. Nome se rende abstracto. Nome anti-libertação. É medo de tocar os céus. Em transe reencontro a que fui quando não era. Em êxtase encontro o nome que era meu e desaprendi a dizer. Corro para lembrar das minhas asas. Fujo para ser encontrada pela outra face da imagem que perdi. Espelho. Projeto no outro o outro que sou, que fui, que queria ser. Todo amor é uma projecção. Toda imaginação é uma lembrança de uma coisa outra que era. É o nome lembrado e cuspido na lama.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Dos monges

Sub-amores olham através das janelas com cortinas entreabertas seu copo de veneno cotidiano passar. Venta. O chapéu que voa solto pelo ar conhece mais histórias sobre vontades entardecidas do que pensávamos. Mato-me mais uma vez para dar sentido à existência. Não aprendi nada no espelho das lamentações. Eiras e beiras continuam perdidas na gaveta da antiga escrivaninha. Não lembro onde começa a história. Línguas se apressam a falar do que não sabem. Uma moeda por teu silêncio! Uma moeda por teu silêncio! É pecado por a culpa no pecado. Não confio em quem me tenta roubar a liberdade. Fragmentos de vento contam suas memórias às janelas abertas. Não sei como se comportam as paisagens. Não suplico por folhas caídas. Cada vela apagada é um livro terminado. O cheiro do eco das manhãs continua a atrair olhares complacentes. Deixo que teu castigo seja a minha indulgência. O sino não fez das pedras mudas. Um corpo sem marcas é um espírito sem vida. Não há verdade em quem tem medo do fogo. Palavras frívolas são como mantras que fazem minha mente viajar para outros universos. Sete arranhões cicatrizados antes do vento apagar a última vela. Nada é tão cataclísmico depois de uma noite de sono. Bons sonhos! Que o santo ventre da terra te seja acolhedor!

sexta-feira, 22 de março de 2013

Sutiã na cabeça

Era terça-feira torta como toda terça-feira torta logo após segunda-feira insana. Acordei. Abri os olhos. Uma borboleta do tamanho de uma vaca estava entalada na minha janela. Abri os olhos. Ainda estava lá. A vil criatura olhava-me com seus enormes olhos famintos. Olhei a porta. Num pulo pus-me para fora da cama. Fugi do quarto. Corri para a cozinha a pensar que meu mal fosse talvez falta de café. Para meu espanto, um dragão chinês cozinhava e, muito educadamente, convidou-me para sentar e apreciar a nova receita de bananas flambadas com canela que criara. Apesar do susto, comi. A cara era muito boa e adoro tudo que leva canela. Depois de comer, calculei que um banho de água fria resolveria o meu caso. Ledo engano! No banheiro encontrei cinco anões azuis tocando rock com seus cavaquinhos."Ó, Zeus, esta casa está amaldiçoada", pensei. O jeito foi correr à rua para respirar ar puro. Péssima decisão! Em frente a minha casa ocorria uma parada de cachorros falantes com plumas de ganso a sair-lhes pelas orelhas. "Só tem uma solução", pensei. "Vou à delegacia. Lá algo devem fazer." Ideia ruim, ideia sem jeito! Encontrei policiais vestidos de Village People cantando fado, enquanto Leonardo da Vinci tatuava Monalisa na sua nádega esquerda. "Não há jeito. Preciso de um médico!". Tomei um táxi para o hospital. Um macaco cor-de-rosa guiava o carro, mas o que é uma cerveja pra quem já está completamente ébrio? "Um médico, por favor! Um médico!", gritei hospital adentro. Caetano Veloso atendeu-me com um uniforme de enfermeira dos anos 50 e confesso que achei que lhe caiu até muito bem. "Preciso de um psiquiatra", disse-lhe. Em poucos minutos estava eu diante de uma orquídea com um lindo vestido amarelo e sorriso branco que perguntava-me: "Que houve, minha querida?" "Acho que enlouqueci. Estou a ver coisas que não podem existir." "E quem diz o que pode ou não existir? Isto e caso de poesia, minha filha." Voltei para casa querendo minha mãe, minha cama e fazer manha. Que dia mais insano! Que terça mais maluca! Mas que é que é insano, afinal? Deixa o caos reinar que isto é casa de escritora.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Precipício

Estes silêncios insondáveis são teu vício. Meu precipício. Penduro minhas asas à janela e caminho para fora do paraíso. Tuas palavras são só resquícios de mil conversas inventadas. Conversas entardecidas. A lua minguou, meu bem. Os cigarros voltaram para a mesa e esperança retornou à gaveta. A memória da pele tem sangue nas mãos. A memória dos sentidos repeliu as tuas palavras. A memória dos encontros esqueceu-se do teu calor. “Pula”, dizem as vozes e permaneço com meus pés presos ao chão. Ó, céus, por que reinvento-te toda vez que morre um pedaço meu? Nunca fomos mais do que histórias antigas recontadas. Rememorar-te é minha covardia cotidiana. A lua é só um arco no céu. Estou só. O silêncio comeu todos os meus afetos. Minhas páginas estão a apagar-se. Reinventemos o dia já que a noite escura nunca finda. Minhas palavras derramadas combinam com teu signo indecifrável. A minha fonte é seca. Minhas raízes estão fracas. Minhas folhas estão a cair. O precipício grita o meu nome. Falta tanto tempo para a lua cheia! Meu tronco já não pode resistir. Estou tão cansada de coleccionar descaminhos! Só as palavras fazem meu coração palpitar. Amo-te porque és a minha mais bela reinvenção. Meu copo de veneno. A lua guia meus passos ao precipício. E precipito-me em teu silêncio inventado.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Outros pecados

Recomeça a vida toda vez que piscam os olhos. E em cada recomeço faz-se céus e terra. O dia durou mais do que deveria. Os meus dias são longos quando tão separados dos teus. Os teus. Ateus dançam agora no nosso esquecido Jardim do Éden. Quiseste provar as delícias do fruto proibido nos meus lábios. Meu pecado teve gosto de desconhecimento. Depois de pecar perdemos o dom de enxergar. Não reconheço mais teu rosto. Vejo um, vejo dez, vejo cem. Todos os rostos que vejo são iguais. Sinto falta de um tempo onde eu cria ser teu rosto diferente de todos os outros rostos. Abel ou Caim? Não sei. Nunca soube. O dilúvio apagou teu perfume das minhas narinas. Castigo para amante de nefilins. As águas apagaram minha existência. Sempre estrangeira em terra distante. Não pertenço à nenhuma das doze tribos. Na tua casa não entrei porque meus muitos deuses ofendem-te. Queres-me. Persegue-me. Não entendo. Não entendo! A carne que beijas à noite, quando dia, queimas em praça pública. Um filho do teu Deus salvou-me do apedrejamento, mas teu olhar continua a condenar-me. Teus olhos crucificam-me. Mesmo depois de por serapilheira, raspar minha cabeça e receber nome cristão, tu pensaste em mim como indigna de ti. “O cão volta ao seu vómito”. Recito teu Livro Sagrado e volto aos meus deuses que nunca abandonaram-me. Recomeça a vida toda vez que piscam os olhos. Que haja a luz!

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Ruínas

Quanto tempo faz que nosso tempo se desfaz? Os tempos não voltam jamais. Não foram sete tempos e meio como na profecia, mas também estamos em ruínas. Nossas muralhas fortificadas são hoje só pó da grande civilização que fomos. O Livro Sagrado não conta a nossa história. Não fomos heróis. Deixamos o amor morrer. Fugimos da guerra por medo da morte e veja só, meu bem, morremos. A culpa foi mais minha que tua. Preferi ver-te transformado em covarde do que queimado em praça pública. E a vergonha fez com que fugisses de mim. A vida é uma faca de dois gumes. Agora sou só algumas pedras, resquício da muralha que um dia fui. Vejo homens subirem em minhas costas e narrarem as histórias que desconhecem sobre nós. Não estamos no Livro Sagrado. Não fomos perversos. Mesmo quando tentamos ser maus, algum amor nos salvou da perdição. E a todos os nossos pecados pagamos. Eu senti o calor da fogueira até virar cinzas. Hoje o céu está cinza. Tudo está cinza. O Livro Sagrado esqueceu-se de nós. Não somos santos. Das nossas mãos ainda goteja o sangue dos inocentes que cruzaram o nosso caminho. Todo mundo é culpado. Todo mundo é inocente. O tempo revela as nossas culpas. O tempo perdoa nossas falhas. Não temos mais tempo. O fogo volta a consumir nossas arruinadas fortificações. Desafiamos aos deuses e eles nunca nos perdoaram. Não perdoarão.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Naufrágio de palavras

Ouço o som do vento lá fora. Ouço o silêncio do tempo cá dentro. Todas as tuas vozes mentem. Ouço-as todas. O vento agita as páginas de um velho livro pousado à janela. O livro mente amores. Esses tais amores que tantas bocas cantam à cada esquina. E cada poeta que canta seus feitos canta com tanta propriedade que sinto cada vez mais vetado a mim o uso do vocábulo. Ouço o som do vacilo das tuas pernas ao caminhar em minha direcção. Tu não vens. Não sei se o fogo ardeu sem ser visto. Não sei. Nunca saberei. Teus dedos mentem quando pegas a pena? Com a pena não mentes. Todas as tuas invenções são tão reais quanto o vento que agora carrega os pedaços do que um dia foi uma carta dirigida a ti. Eu menti. Menti meu desamor. Não reparaste que em momento algum meus olhos tocaram os teus? Não, tu não reparaste. Não reparas em mim. O vento traz folhas do fim do outono. Nenhum outono vence o inverno. Mesmo teus invernos foram-me verões. Mas as naus continuam a seguir mesmo sem ti. Teu barco permanece ancorado mesmo que mintas a ti o contrário. Estendo minhas velas ao vento. Sempre. O vento leva-me ao meu destino. Os ventos rasgam o silêncio que não quis se calar. Queria que soubesses calar nossos subjuntivos. Tu não o fizeste. Em vez disso, pôs ponto final em nossas orações. Culpamos o mar. Culpaste o tempo. Culpo o medo. Minhas velas incertas guiadas por ventos passageiros puseram medo ao coração do marinheiro. Meu barco precisa do vento. O vento que nos afasta e leva tuas palavras ao fundo do mar. E ouço o vento calar as tuas vozes.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Chuva dourada de outono

Hoje recebi um sinal. Saía de casa nervosa a pensar na minha apresentação oral de Italiano quando um evento mágico ocorreu: na rádio, uma das minhas músicas favoritas começou a tocar e, no mesmo instante, um vento forte fez com que as folhas secas, douradas das árvores de uma rua de Coimbra começassem a voar por toda a parte. Era a chuva dourada! Sorri. São essas pequenas magias do dia-a-dia que fazem-me feliz, fazem-me sonhar e acreditar em forças superiores a mover meu mundo. Estou às portas dos vinte e três anos. Quando lembro-me de como eu era, quase não acredito em onde estou. E não falo de um estar geográfico. É onde estou cá dentro de mim. Mil vezes meu caminho mudei. Todas as vezes que me apeteceu, escolhi a estrada da bifurcação que dizia perigo. Algumas vezes me machuquei. Em outras, descobri que a placa não passava de uma galhofa. Mas em todas as vezes que escolhi um caminho, fui feliz por escolher o meu caminho. Dizem que cada escolha é uma renúncia. Digo que cada escolha é uma denúncia. Nossas escolhas vão, aos poucos, denunciando nossos desejos, nossos medos, nossos desconsertos. Estou exactamente onde eu queria estar. Se um pequeno trecho da estrada fosse diferente, cá eu não estaria. É, são chegados os vinte e três anos. Tempo pouco. Tempo muito. Tempo suficiente para descobrir que é melhor saborear o mundo do que comê-lo todo de uma vez só. Mas, às vezes, uma grande mordida é uma delícia! Nunca testemunhei um assassinato, mas vi alguns corações serem enterrados vivos. Também já enterrei o meu. Mas seu pulsar era tão forte que a terra sobre si não o pode conter. Sinto gotículas geladas em mim. É chegada chuva. Tempo frio. Melhor assim. Quanto mais gela lá fora, mais quente fica cá dentro. O outono e suas magias. Passo na Oito de Maio e um casal corre, dança e pula ao som de um senhor que toca. Sorri.Do outro lado do Mondêgo, às suas margens, um casal de idosos passeia e conversa de mãos dadas. Tão lindos! Dias de outono são sempre tão mágicos! Hoje recebi mil sinais. De agora em diante, contarei meus anos pelos outonos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Dia e noite

Dia e noite. Somos dia e noite, meu antigo delírio. Teus olhos carregam a cor dos dias claros de sol. Tu és sol. Eu sou a noite. Sou o anoitecer. Em meus olhos só podes ver o escuro de uma noite tempestuosa. Sou tempestade. Só sei ser tempestade. Tua calma diurna me desconcerta. Desalinha-me. Enlouquece-me. És sol, meu bem. És sol. E és capaz de iluminar o mais apagado dos corações. Mas não quero que a tua luz acabe com o meu enoitecer. Se eu não mais noite for, dia por certo não serei. Que serei então? Uma tarde? Ou madrugada? Não posso, não quero. Não podes amar-me noite, compreendo. Só nasço quando tu já morres. E tu ressurges quando tenho que desaparecer. Mas sejamos justos, meu sol. Jamais me teria querido se eu fosse dia como tu és. O Sol só desejou a Lua porque não a poderia possuir. Nem tu, nem outro qualquer. Noites não podem ser possuídas, não aceitam ser postas em aquários. Noites não são peças decorativas de uma estante. Noites são amantes da Saudade. Noites são fragmentos de Sonhos Antigos dispersos, perdidos, encontrados, desalinhados. Noite é tudo o que não és, belo dia. Noite não tem medo como o dia tem da escuridão da noite. Tu fizeste-te sol por medo do escuro. Fiz-me lua para seguir mesmo sem ver o caminho onde piso. Não tenho medo. Não mais. Depois que o dia se foi voltei a ter paz.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Coisas de fora da tribo

Mar. Maldito mar! O mar mentiu pra índia. Índia devia era ter sabido que tanto azul assim de verdade é que não devia de ser. Índia acreditou em palavra de homem branco e índia nunca acreditava em palavra de homem branco. Índia sentiu uma coisa morrer dentro de si. Índia sabia que muito e por demais bem queria homem branco mesmo querendo fazer guerra com homem branco. Índia quebrara flecha da paz com homem branco. E índia pensou em como a gente começa a aceitar até flecha no peito se flecha no peito fizer coração parar de doer. A gente brinca de faz-de-conta-que-é-verdade e acaba por acreditar em palavra de homem branco. E homem branco pensa que a gente sabe que é brincadeira quando fala de amor. Mas homem branco não sabe que, na minha tribo, bem querer nunca que é brincadeira não. Só porque índia anda perdida da tribo, homem branco pensa que índia perdeu toda noção. Índia só se perde quando homem branco vai embora sem dizer porque foi embora. Mas índia vai aprendendo que em palavra de homem branco não se confia. Homem branco não faz por mal. Homem branco acha que índia nada sente, que índia é diferente, que índia não é gente. Mas índia espera um dia ver homem branco chorar e muito, igual índia chora agora. Índia promete a si mesma matar pra sempre o querer-bem-quem-não-lhe-quer-bem. Índia promete.

sábado, 13 de outubro de 2012

Das ascensões e declínios das paixões (parte 1)

Voltou os olhos para o além-mar. Abandonou. Abandonou-se. Ainda perguntava-se se de fato voltara. E, enganando-se, dizia que sim. Quem foge da liberdade? Talvez quem fuja sinta-se livre para fugir. Em terra de certezas, permanecia uma interrogação. Quis correr para sentir o vento no rosto tal como antes sentia. Não correu muito. Cansou. Parou. Sentou-se no chão. Viu as horas. As horas. Malditas horas! Corriam demais. Demoravam demais. Horas e seus ais… Chorou. Lembrou das palavras da avó que sempre dizia que as lágrimas limpam a alma. Pensava ter banalizado seu choro. Por tanta coisa boba já deixara-se escorrer! Mas quem , afinal, determina o por quê se é justo chorar? Viu o sol querer desaparecer no horizonte. “Meu sol”, sussurrou ao vento . E esperou que seu sussurro fosse pelo vento entregue ao seu verdadeiro dono. Lembrou do velho caderno. O velho caderno foi esquecido. Não. Foi deixado. O caderno esperaria por um leitor na última gaveta da cómoda do corredor. Aquela que ninguém nunca abre. A gaveta aonde guardava-se fotos antigas, velhitas e já danificadas. Alguns trabalhos de tricô já manchados pelo tempo. Um sapatinho de bebé azul e sem par. Folhas de outonos passados. As folhas do seu caderno eram do outono passado. Outono. Pensara ter morrido junto com o outono. Não morreu. Talvez a vida não seja assim tão frágil. A morte pareceu-lhe muito mais delicada. Fugiu. Foi pelo medo do declínio que fugiu. Agora sabia. Cansou-se de estar sentada. Poderia deitar-se no gramado. Ver o céu. Contar estrelas. Não. Levantou-se. “Está feito”. E o vento parou.

Canto de esquecimento

Tu deixaste-me inventar uma nova ilusão. O mar em mim era tão revoltoso que quando encontrei as águas calmas nos olhos de um novo sol, não pude resistir. E o mar em mim não acalmou-se. As novas caravelas que passaram a atravessá-lo agitam-no tanto ou mais do que as antigas. Mas este canto não será erigido ao meu sol. Não. Este canto é de esquecimento. Quero que esqueçamos tudo o que não deveria ser esquecido. E que rememoremos, meu bem, as memórias esquecidas, as páginas apagadas. E o que nunca existiu. E o que erigimos ao nosso redor. E o que inventamos tão dentro de nós que até parece de verdade. E a minha antiga ilusão abandonar-me-á. Oh, meu céu! Por que te enublaste? As tardes foram ficando cada vez mais curtas até que, por fim, nos tornamos noite sem fim.E até as nossas tortuosidades perderam a importância que em tempos posteriores tiveram. Tão triste! Quero escrever uma nova história. Nosso enredo chegou ao final. A minha espera foi desleal conosco. Tu já nem me olhas... Hoje meu canto é de esquecimento. Perdoa-me, meu vento primaveril. O outono espera-me. E pequenos fios de ouro brincam ao meu redor.