segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Sobre tessituras e retalhos

E é chegada a manhã, e a agulha, que tão facilmente entrava em cada casa, escapou-me dos dedos. Perdoe a minha desatenção aos teus retalhos. Mas há muito de não dito nas tuas palavras tecidas sobre o papel. E já não ouço a voz do teu sangue desmaiado após um dia de agosto. Mas o teu nome bordado sobre a camisa ainda sangra. E teus olhos sempre serão este inacabado trabalho de Penélope. Quanto ao teu espírito, este continua a ser uma cidade despovoada, embora o corpo nunca o tenha sido. Não quero a tua tessitura a marcar a minha pele. Meu coração já esteve alinhavado ao teu. A minha bravura, hoje, entretanto, é desfazer este rude trabalho de costura. Já nenhum dedal empurra a agulha que cosia incansavelmente as nossas partes que nunca puderam formar um todo. A tesoura passeia pelo tecido e fragmenta todos os teus pequenos detalhes. A agulha e a linha agora repousam dentro da pequena caixa de madeira dos trabalhos costureiros.